Recordar… o Vitória #62

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Acertar na escolha de um jogador, por vezes, é quase como um tiro no escuro.

Uma aposta que, apesar de todas as análises pode, por vezes, levar a situações insólitas ou rocambolescas, como a que vamos narrar.

Estávamos na pré-temporada de 1992/93. Depois de uma época anterior sofrida, em que Marinho Peres não conseguira igualar o trabalho efectuado seis anos antes, sendo despedido, entrara Bernardino Pedroto.

O então jovem técnico conseguira cumprir os serviços mínimos, resgatando a equipa da zona funda da tabela e merecendo, por isso, a confirmação da sua continuidade para a próxima temporada.

O regresso às competições europeias era o objectivo, sendo que para isso era necessário reformular a equipa, dotá-la de outras soluções, fazê-la capaz.

A pré-temporada começou cheia de esperança. Os jogos de pré-época decorriam de modo satisfatório, o Vitória, a cada momento, demonstrava evolução nos princípios de jogo preconizado e todos os vitorianos acreditavam que estávamos perante um conjunto capaz de resgatar as boas classificações.

Durante esse período chegaria a Guimarães, um jovem brasileiro de 20 anos, proveniente do Tuna Luso, à experiência. Giovanni Silva de Oliveira, de seu nome, integraria os trabalhos da equipa, na busca de merecer abrir as portas do futebol europeu, sonho de qualquer futebolista canarinho.

Desempenhando a função de avançado, podendo jogar em qualquer área do ataque, Giovanni tentou agradar a Bernardino Pedroto naquele Verão, sendo olhado como mais um jovem à procura de um lugar ao Sol.

Quase ao mesmo tempo, com o intuito de escapar à guerra que assolava o seu país, chegava a Guimarães um jovem talento esloveno, estrela de um dos maiores clubes dos Balcãs, o Partizan de Belgrado: Zlatko Zahovic. Tratava-se de um esquerdino, organizador de jogo, capaz de iluminar o jogo ofensivo de qualquer equipa, sendo reputado, à data, como uma das maiores esperanças do futebol europeu.

Ora, numa época em que só se podiam inscrever três estrangeiros, e com dois lugares ocupados, alguém teria de abandonar o barco.

Caberia ao brasileiro Giovanni, que regressaria ao país, sem ter hipótese de mostrar o seu valor.

Entretanto, em Guimarães, Zahovic estrear-se-ia de Rei ao Peito na segunda jornada desse ano, em Braga, num desafio que os eternos rivais se anularam mutuamente, a ponto de empatarem a zero.

O esloveno continuaria o seu papel ascensional no Vitória…com altos e baixos…com momentos de magia entrecortados com outros de alheamento, num claro sinal que a genialidade é como a electricidade: liga-se num clique, mas pode permanecer desligada por muito tempo.

Quanto a Giovanni, depois de ter voltado ao seu Brasil natal, não desistiria do seu sonho. Encetaria um percurso ascendente, que o levaria a chegar a um dos maiores emblemas brasileiros, o Santos, onde inclusivamente vestiria a camisola verde e amarela do escrete, o que lhe abriria as portas para o Barcelona. Nos blaugrana conseguiria vencer uma Taça das Taças e duas Ligas espanholas, antes de rumar à Grécia, onde conquistaria cinco ligas helénicas.

Zahovic, esse, passaria três temporadas no Vitória. Depois da de adaptação com Pedroto, seria nas duas temporadas seguintes que expressaria com maior acuidade a sua técnica prodigiosa e a sua capacidade para chegar aos terrenos do golo.

Aliás, na última temporada que vestiu de branco, depois da partida de Vítor Oliveira e da chegada de Jaime Pacheco seria absolutamente decisivo na recuperação que o nosso clube encetou até lugares europeus. Os seus golos, as suas assistências, a sua capacidade de tabelar com os jogadores mais adiantados, ou os seus dribles em velocidade faziam dele um dos atletas mais desejados no final daquela época de 1995/96.

E, ainda por cima, supostamente encontrava-se sem contrato. Por essa razão, seria, surpreendentemente, anunciado no FC Porto, num processo que deixou todos os vitorianos agastados e que, ainda hoje, demonstram ressentimento.
Porém, aquela pré-temporada de 1992/93 foi a temporada que se teve de decidir entre dois génios…

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