Recordar… o Vitória #16

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

A época não estava a ser fácil!
O sonho europeu para o Vitória, comandado por Bernardino Pedroto, parecia esfumar-se a cada jogo.

Naquele 15 de Maio de 1994, depois de dois empates consecutivos, aquele jogo com o Porto de Bobby Robso era decisivo!

O Vitória tinha de o vencer para não deixar fugir o comboio das provas uefeiras.

Não haveria de o conseguir, como não conseguiria nos quatro subsequentes, transformando uma época que começou prenhe de esperanças em desilusão.

Seria o ano em que duas grandes penalidades desperdiçadas por Paulo Bento, no Bessa e em Faro, ajudariam a matar esse sonho, ao impedir a conquista de pontos que tão preciosos seriam para esse sonho ser realidade.

Porém, aquele desafio contra os homens da Invicta entraria na lenda vitoriana… um momento nunca visto!

É certo e sabido que os jogos entre Conquistadores e Dragões são cheios de peripécias, de episódios que entram para a história. Sempre assim foi e na década de 90 do século passado não era diferente. Podemos relembrar a entrada bárbara de André (pai do nosso André) que inutilizou para toda essa temporada o brasileiro René Weber, os incidentes seguidos de invasão de campo no ano seguinte a esta época, ou a horrenda lesão do bósnio Dane Kupresanin em choque com Aloísio na temporada anterior a esta. E seria este homem, o grande herói deste jogo… pelas razões mais inexpectadas, numa espécie de recompensa divina pelo sofrimento de muitos meses passados nos corredores dos hospitais.

Porém, o desafio, dirigido por José Pratas, um árbitro conhecido pelo temor reverencial que ostentava pelas equipas tituladas, começou equilibrado.
O Vitória entrava em campo determinado a vencer… teria logo oportunidades flagrantes com Alexandro a falhar um golo feito.

Porém, o líder do campeonato haveria de se recompor e aquele tiro de Fernando Couto, de quase do meio campo, à barra da baliza Conquistadora, ainda hoje deve ter estar marcada na baliza norte do Estádio D. Afonso Henriques.

Um desafio absolutamente equilibrado, com uns Conquistadores a demonstrarem talvez a sua melhor face da temporada.

Seria, assim, até à entrada no último quarto de hora da contenda, com oportunidades para ambos os lados, ainda que as duas equipas fossem incapazes de fazer a bola beijar as malhas…

Até que aos 75 minutos, o momento que desencadearia a história. Semedo isola-se perante o guarda-redes Madureira e, aparatosamente, cai. Apesar do lance ser fora da área, apesar de ter Basílio a seu lado, o árbitro eborense não hesitou. O guardião vitoriano iria para a rua, expulso!

Por na altura, só se poder fazer duas substituições, e já terem entrado em liça o esloveno Zahovic e o tunisino Ziad, mais substituições não poderiam ser feitas.

Um verdadeiro 31 para o treinador Bernardino Pedroto resolver!
Teria de ir um jogador de campo para a baliza!

Depois de momentos de dúvida, um homem que se dedicava a atormentar os guarda-redes contrários, tomou a decisão! Assumiu, com a coragem, que lutara para voltar aos relvados durante meses.

Dane Kupresanin, pegou nas luvas do seu colega expulso e com o guardião suplente, Fernando Brassard, atrás da baliza, a dar-lhe indicações, ocupou o lugar de Madureira.

Aí, o bósnio foi grandioso!

Sublime!

Com um estádio em ebulição, com 15000 vitorianos a apoiá-lo, tudo o que chegou à baliza foi defendido, com segurança e classe, pelo jogador de campo.

Foram livres.

Cruzamentos para o gigante Vinha, entretanto, entrado na peleja.
Remates do meio da rua.

Passes em profundidade.

A tudo, com sobriedade e classe, o playmaker vitoriano respondeu.
Estava intransponível!

E assim, o jogo chegaria ao fim, com Dane a ser levado em triunfo pelos seus colegas e aplaudido por um estádio em delírio.

O Vitória não tinha ganho… mas, um bósnio havia ganho o direito a figurar num dos momentos mais estóicos da história vitoriana!

Dane… o guarda-redes improvável!

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