Recordar… o Vitória #22

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Eram outros tempos…

O culminar de um projecto sublime.

O voleibol foi no início do século a menina dos olhos das modalidades vitorianas.

Eram as tardes, noites com o pavilhão cheio, ao rubro, em momentos que só julgávamos ser possíveis nos recintos gregos ou turcos.

O Pavilhão da Unidade era a nossa Turquia, pontuado por músicas que colocavam os adeptos em ebulição a cada recepção vitoriosa, a cada mergulho para a bola, ou a cada tiro imparável para pontos que eram festejados como se de golos se tratassem.

Era a temporada em que nomes como os do capitão Allan Cocato, de Hugo Gaspar, de Eurico Peixoto, de Nélson Brizida, eram recitados como se ídolos se tratassem. Além disso, realce para uma “ovelha negra” que se tornaria num dos preferidos dos adeptos: Pedro Azenha, que sempre que jogava em Guimarães era assobiado e que se tornou em ídolo.

Era, também, o ano em que os vitorianos andavam com um sorriso rasgado com uma equipa de futebol que lutava pela Liga dos Campeões e por uma de voleibol que sonhava com os píncaros do êxito nacional, com o objectivo do Vitória ter pela primeira vez uma equipa sénior campeã nacional.

Contudo, nos play-off, para onde os Conquistadores se apuraram com previsível tranquilidade, o caminho seria árduo, duro. Depois da eliminação do Castelo da Maia nos quartos de final do campeonato, seguir-se-ia o Benfica e o primeiro grande susto. Os vitorianos perderiam o primeiro jogo em casa e passavam a ser obrigados a vencer em Lisboa, pois esvaira-se o factor casa. Num pavilhão encarnado repleto, os Branquinhos foram verdadeiros Conquistadores, lutando por cada ponto, por cada bola… conseguindo vencer na negra e trazendo a decisão para a cidade mais bela do país, aquela onde nasceu Portugal, a nossa!

Num pavilhão repleto, com as portas abertas para caberem todos os vitorianos, a equipa do Rei foi de uma eficácia indiscutível… vitória por três a um e regresso a uma final que, na temporada anterior, havia sido perdida para o Sporting de Espinho, por aqueles dias a verdadeira besta negra do Vitória.

A final a cinco jogos começaria a contento… um êxito da equipa branquinha e só faltavam dois jogos para o sonho! O pior viria depois… a classe espinhense haveria de fazer miséria e vencer os dois desafios seguintes. Pior, no subsequente, e que poderia ser decisivo caso o vencesse, os Tigres tiveram a mão no caneco ao vencer por dois sets a zero… perante um pavilhão cheio, o ambiente turco emudeceu! Ainda não seria desta…

Mas, os Conquistadores vêem-se nas dificuldades… nas agruras! Fazendo das fraquezas forças, melhorando na recepção, com Azenha brilhante na distribuição e homens como Gaspar ou Peixoto a facturarem, o milagre aconteceu… o Vitória dava a volta ao desafio e empatava a série! Porém, o que naquela época, mesmo na fase regular, houvera sido impossível, tinha de acontecer: ganhar junto ao mar, em Espinho.

Aí, a 19 de Abril de 2008, os vitorianos foram extasiantes, inebriantes, conclusivos. Perante uma verdadeira multidão do Berço, não deram qualquer hipótese para conseguirem agarrar o sonho. A vitória por três sets a um foi a consequência de uma exibição de uma equipa, que no ano seguinte, haveria de deixar a Europa de boca aberta na Liga dos Campeões da modalidade.

O Vitória venceria por três bolas a uma, para desencadear alguns dos momentos mais arrepiantes da sua história. Na verdadade, o trajecto de Espinho até ao pavilhão foi inolvidável, tornando-se num arrepiante cortejo branco quando o autocarro Conquistador chegou à portagem de Silvares. A partir daí, até ao pavilhão que estava repleto, a festa foi sublime… arrebatadora… única… e durou até às tantas!

Os gritos da ordem eram dois: “Campeões, campeões, nós somos campeões” e um inesquecível “Azenha cab*#o, o Vitória é campeão”, como brincadeira com o, agora, ídolo, mas que antes era um dos ódios de estimação daquele ambiente turco do nosso pavilhão.

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