Recordar… o Vitória #52

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Nem todos têm a imensa sorte de nascer vimaranenses e vitorianos. Porém, nada impede que passem a amar esta cidade como se fosse deles e, concomitantemente, se tornem vitorianos.

Aliás, se a esses factos acrescentarmos o facto de durante muitos anos envergar a armadura branca dos soldados de Afonso Henriques, capitaneando dentro do campo de batalha as tropas, esse sentimento ainda se torna mais flamejante, mais ardente… no fundo, torna-se um de nós, com o registo de nascimento noutra localidade!

Essa poderia ser a definição do sentimento de Flávio Miguel Magalhães Sousa Meireles, um transmontano de Ribeira de Pena, que menino rumou a Guimarães em busca de um sonho: ser jogador de futebol, tornar-se profissional e encetar uma carreira.

Cumpriria os escalões de formação desde os juvenis. Um médio defensivo raçudo, disposto a dar tudo em campo, a meter o pé como se fosse o lance que decidisse a final da Liga dos Campeões, a compensar as lacunas técnicas com garra, abnegação, suor…

Chegado aos seniores, imediatamente cumpriria um tirocínio entre Moreira de Cónegos e Fafe. Flávio era a âncora daquelas equipas, sendo que a dureza dos escalões secundários ainda lhe deram mais estofo, mais determinação, mais coragem e fariam com que fosse chamado pela primeira vez à casa mãe, para cumprir o sonho que o norteava desde menino: estrear-se na equipa principal do Rei. Aconteceria a 06 de Fevereiro de 2000, num desafio caseiro perante o Estrela da Amadora, com Quinito ao leme vitoriano e que o nosso clube venceria por uma bola a zero, graças a um golo de Brandão.

Esse momento seria quase exclusivo, antes de voltar a fazer-se à estrada, a tentar a sua afirmação. Aí surgiria o clique que alteraria a sua vida. Sob o comando do Mestre Manuel Machado rumaria a Fafe e daí ao Moreirense, já sem qualquer vínculo de ligação aos Branquinhos. O seu destino era incerto e teria de ser trilhado a pulso, como o sacrifício que colocava em campo na recuperação do esférico num contra-ataque adversário.

Sempre com o Mestre Machado haveria de viver anos áureos, em Moreira de Cónegos. Flávio entraria no clube da vila de Guimarães no terceiro escalão do futebol português, e ao lado de homens como Alex, Castro, Ricardo Fernandes, Primo, catapultaria os cónegos para patamares inimagináveis, subindo dois escalões em dois anos e quase batendo às portas de uma incrível qualificação europeia.

Numa equipa lutadora, determinada, que fazia da recuperação de bola para lançar rápidas e mortíferas transições a sua essência, o papel principal era seu. A sua camisola manchada de suor era o seu maior certificado de qualidade!

Até que chegamos ao final da temporada 2002/03 e Pimenta Machado, depois de uma fantástica temporada, pretendia dar a Augusto Inácio mais trunfos para atacar os lugares cimeiros na época subsequente. Apesar de tal não ter ocorrido, para esse ano o técnico pediu dois nomes provenientes do vizinho concelhio: Afonso Martins (que marcaria o primeiro golo do reformulado estádio frente ao Kaiserslautern) e Flávio que regressava à casa mãe para se afirmar.

A partir desse momento viveria oito temporadas de Rei ao peito, onde choraria, sonharia e sorriria… sempre na luta do meio campo, sempre disposto a sacrificar-se em campo, sempre a colocar a equipa acima dos seus próprios interesses.

Com a camisola do Vitória conquistaria apuramentos europeus, passaria por sustos de despromoção, sonharia com a Liga dos Campeões e cairia, mesmo, no segundo escalão, onde disse a frase que o haverá de acompanhar até à eternidade: “ Dizia que não ao Braga na hora!” Para além do profissionalismo, a confirmação de um homem que já era mais do que um jogador: era um de nós, adeptos, dentro de campo! O nosso modo de sentir! A nossa vontade de vencer!

Sempre imprescindível, haveria de capitanear com abnegação os Branquinhos no inferno da Segunda Liga, para fazer, de imediato, a sua melhor temporada ao serviço do Rei. Naquele ano, em que o Vitória ficou no terceiro posto, Flávio foi imenso, encheu os campos por esse Portugal fora, a ponto de sonhar com uma convocatória para o Euro 2008. A mesma não aconteceria, mas Portugal ficou a saber da qualidade de um trinco que era indispensável no Vitória.

Assim seria até à época 2010/11, a sua última, antes de terminar a carreira. Sempre no mesmo registo, até aquele 16 de Abril de 2011, onde entrou no último minuto do desafio frente ao Marítimo, para se despedir dos terrenos de jogo. O Vitória, o seu/nosso Vitória, ainda haveria de se deslocar ao Jamor para discutir com o FC Porto a vitória na Taça de Portugal, mas Flávio ficaria no banco de suplentes. Contudo disse uma frase, que se tornaria premonitória: “ estou aqui para levantar o troféu, para o levar ao meu filho”:

Não o conseguiria e no final do jogo anunciaria o final da carreira, para continuar ligado ao clube como director desportivo.

Dois anos depois o sonho e a promessa ao filho seria cumprido, ainda que com ele com funções fora do campo, que ainda hoje exerce.

Flávio, juntamente com Neno, são os bastiões da mística vitoriana…o espólio moral de um clube quase centenário e a viver os desígnios da globalização! Farão falta mais alguns como eles!

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