Recordar… o Vitória #55

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Terá sido um dos nomes mais sonantes a envergar a camisola vitoriana no início da década de 80 do século passado. Ainda, para mais, quando os mercados que a maioria dos clubes recorriam eram o brasileiro ou o africano.

Ton Blanker, o jovem holandês, proveniente do Ajax, era a maior das esperanças dos Branquinhos para uma temporada em que Pimenta Machado assumia a presidência do clube e que, após um início de campeonato titubeante do treinador Fernando Peres, iria apostar numa tríade de técnicos, saída do FC Porto em conflito com o presidente Américo Sá e que haveria de deixar memórias em Guimarães: José Maria Pedroto, Artur Jorge e António Morais.

Porém, antes da chegada deste trio de predestinados dos bancos, o Vitória procurou reforçar-se para dentro de campo, com especial destaque para o jovem holandês, que chegava a Guimarães comparado a Johann Cruyff. Tal, desde logo, denunciava as muitas esperanças que se tinha no talentoso atleta de, apenas, 20 anos e com o selo de qualidade da formação dos Lanceiros de Amesterdão e internacional jovem pelas selecções da Laranja Mecânica, por esses dias bi vice-campeã mundial.

Aliás, naquele Ajax, orientado pelo velho caminhante Leo Beenhakker, e onde pontificavam nomes como o mítico Ruud Krol, o dinamarquês Soren Lerby ou o jovem, que viria a ser campeão europeu pela Laranja Mecânica, Wim Kieft, o menino Blanker surpreenderia a Europa do futebol.

Tendo-se estreado num desafio na quinta jornada da Liga Holandesa de 1979/80, não demoraria muito a deixar o seu traço na história do clube de Amesterdão…e que traço! No primeiro jogo que marcaria golos pelo seu clube, fá-lo-ia logo com um poker, em jogo a contar para a, então, Taça dos Campeões Europeus frente ao HJK Helsinquia. Seguir-se-ia um golo no jogo da Liga nacional, e de imediato, um hat-trick frente ao Omonia Nicósia em novo jogo a contar para a prova europeia.

Aliás, estes dois momentos na máxima prova do Velho Continente fizeram com que terminasse a competição como o segundo melhor marcador da mesma.

Estava encontrado o novo menino de ouro do futebol europeu… o novo holandês candidato a sentar-se no trono de Cruyff e cobiçado por equipas como o Real Madrid, o Milan ou o Bayern.

Porém, nem todos lidam com as expectativas do mesmo modo. Blanker era daqueles que não sabia viver com pressão, com os holofotes virados para si! Tal levou a que no final dessa época quisesse abandonar Amesterdão. O Ajax aceitaria tal vontade, desde que o avançado não fosse reforçar qualquer equipa do seu país, algo que foi sabiamente aproveitado pelo empresário Valter Ferreira para o levar até Pimenta Machado, que não enjeitou a oportunidade de ter na equipa a que presidia um dos maiores talentos jovens de então.

No Vitória estrear-se-ia, como já dissemos, no início da temporada de 1980/81, num desafio perante o Académico de Viseu. O primeiro golo, esse, chegaria um pouco mais tarde, numa derrota da equipa dos Branquinhos por três bolas a uma perante o Sporting de Espinho. Seria, aliás, o primeiro de oito tentos, com destaque para os dois golos apontados ao eterno rival, numa goleada perpetrada pelos Conquistadores à moda antiga, já com Pedroto ao leme. Aliás, tal momento, desencadearia tanta euforia nas hostes vitorianas que organizariam um dos momentos de maior fervor vitoriano da história: o Comboio Branco, destinado a levar todos os que quisessem até Lisboa, para apoiar a nossa equipa frente ao Benfica. O Vitória acabaria por perder, mas ficou na história mais um, entre tantos, momentos de amor ao símbolo do Rei.

O holandês, esse, continuaria a mostrar talento… a pintar os relvados nacionais de bons momentos…a despertar atenções. Acabaria o campeonato em momento sublime de forma, com um bis ao Amora, que valeu o triunfo no jogo, e outro à Académica.

No final da temporada, surgiria a hipótese de se transferir para Espanha, para o Zaragoza, então, treinado pelo homem que o lançara na alta roda do desporto-rei europeu: Leo Beenhakker. O Vitória, esse, esfregaria as mãos, pois a rentabilização do activo era superlativa e poder-se-ia olhar para a temporada seguinte com maior ambição.

Blanker, esse, não seria feliz… não se afirmaria e entraria em curva descendente, acabando, inclusivamente, por ter problemas com a justiça. Sairia para o Salamanca, daí regressaria ao seu país, onde no Volendam ainda apontaria alguns golos pautados por bons momentos, para acabar a carreira na América.

Porém, será sempre recordado como o holandês que, naquele Verão, desencadeou a loucura no Vitória…afinal, era o discípulo de Cruyff que prometia mostrar o caminho do êxito!

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?