Recordar… o Vitória #61

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Na história do Vitória poucos jogadores estrangeiros viveram um processo de simbiose tão profundo com os adeptos, como o sérvio Ivan Djurdjevic.

Talvez pelo modo de ser do jogador, com um espírito inquebrantável, sem dar por perdido qualquer lance, fosse pela capacidade de se sacrificar sempre pelos interesses colectivos, o médio ala em três temporadas estabeleceu um vínculo tão forte com os vitorianos, que ainda hoje ocupa um lugar especial na memória da grande maioria.

Chegado a Guimarães, proveniente do Farense, na temporada de 2002/03, imediatamente ganharia um lugar de destaque no esquema táctico gizado por Augusto Inácio. Aquele 3-5-2, previa que os homens a ocupar as faixas, além de defenderem, tivessem propensão ofensiva, pelo que a sua disciplina táctica e o seu pulmão eram as características essenciais para desempenhar a posição com êxito.

Tendo-se estreado com a camisola do Rei na primeira jornada dessa temporada, na vitória por duas bolas a uma em casa da União de Leiria, o primeiro golo não demoraria muito a chegar. Ocorreria à quinta jornada, no empate a dois em Coimbra e tal momento demonstrou outra das capacidades do esquerdino. Na verdade, aquele livre teleguiado, que se alojou no ângulo da baliza defendida por Pedro Roma, terá sido um momento de inspiração individual belíssimo e capaz de colocar os vitorianos a pensar que finalmente tinham em casa um marcador de livres de eleição.

Apesar do empate, o Vitória por esses dias era a equipa sensação da prova. Com um futebol frenético e imprevisível, os Conquistadores eram um pesadelo para qualquer adversário, como sucedeu na jornada seguinte, frente ao Santa Clara. Em Felgueiras, como sucedeu sempre nesse ano, a equipa orientada por Augusto Inácio foi arrebatadora, ao vencer por cinco golos sem resposta. Mais uma vez, Ivan fez uma exibição de encher o olho, num constante vai-vem pela ala esquerda, pontuada por mais um golo. Além de ter de ajudar a defender, ainda tinha pulmão para chegar à área contrária e facturar!

A época continuaria com o jogador, herói destas linhas, com lugar cativo no onze vitoriano. Seriam 32 desafios, num claro sinal de imprescindibilidade, e onde caberia mais um golo, para além dos dois já aludidos, noutra exibição colectiva memorável frente ao Boavista.

No final da temporada, o quarto lugar final saberia a pouco. Quer pelo facto daquele futebol de excelência merecer um pouco mais, mas também pela razão de, num caso único, não ter dado direito a apuramento europeu.

A temporada seguinte, já disputada no renovado D.Afonso Henriques, não teria tanto encanto. Seria a última temporada de Pimenta Machado como presidente do clube e seria aquela que o Vitória, apesar de partir com a ambição de reduzir a distância para os mais titulados, salvou-se da despromoção in extremis.

Quanto a Djurdjevic, apesar disso, continuaria a ser importante na equipa base dos Branquinhos. Ainda que a meio da temporada, Augusto Inácio fosse despedido, para dar lugar a Jorge Jesus, a verdade é que quer um quer outro encontraram sempre um espaço para encaixar a alma voluntariosa e a disciplina táctica do jogador. Assim, ainda com menos fulgor que na temporada anterior, haveria de ser decisivo na salvação do Vitória, ao apontar um dos golos na vitória sobre o Rio Ave, já no ocaso da prova. Seria, aliás, a penúltima vitória de uma temporada em que tudo correu demasiado mal e que, apesar de culminar com a salvação, levaria à partida do então presidente, entrando para o seu Vítor Magalhães, que traria, consigo de Moreira de Cónegos, o treinador Manuel Machado.

Para mais um treinador, o sérvio seria basilar. Fosse com o Vitória a actuar em 4-4-2, 4-3-3, ou 3-5-2, atendendo aos vários esquemas usados na temporada, Ivan seria sempre titular. Desempenharia um papel importante na época em que o Vitória regressaria à Europa.

Sempre titular e autor de dois golos, o último dos quais na vitória por três bolas a uma no êxito perante o homónimo sadino, faria parte da equipa que, perante um Afonso Henriques em ebulição e pleno, ganharia ao rival Boavista, conquistando a classificação europeia.

No final da partida ficaria na memória, o modo apaixonado com que se despediu dos vitorianos, com as lágrimas a jorrarem-lhe pela face, enquanto batia com a mão no peito, em sinal de confissão que o amor que sempre lhe foi dedicado era recíproco.

Era o sinal que iria partir… que, fruto do desejo de uma reformulação radical por parte de quem mandava, iria abandonar os Conquistadores, levando consigo um naco de mística…e que falta faria ela na temporada seguinte.

Rumaria ao Belenenses, onde depois de duas épocas, emigraria para a Polónia para jogar no Lech Poznan, onde acabaria por se estabelecer. Actualmente é o treinador principal do Chrobry Glogów.

Porém, jamais saiu da memória dos vitorianos…quantas vezes, pela cidade, vemos jovens com chapéus, que na altura se vendiam, com o seu número 21 e o seu nome? Quem dá tudo pela camisola do Rei, entra na nossa história!

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