Recordar… o Vitória #68

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um zairense com um pontapé bombástico…

Uma chuteira que poderia ser definida como um canhão, um bombardeiro!

Falamos de N’Kama, avançado que chegou ao Vitória, na temporada de 1986/87, juntamente com N’Dinga e Basaúla, pela mão do empresário Valter Ferreira, amigo e empresário próximo do presidente António Pimenta Machado.

Proveniente do Vita Club, um dos melhores e maiores clubes do seu país, deixaria para sempre memórias em Guimarães, ainda que na terra do Rei, apenas, tenha actuado duas temporadas.

Contudo, as memórias não carecem de longos períodos de tempo para se tornarem definitivas, marcantes.

Integrado na mítica equipa de Marinho Peres, que encantou o país e surpreendeu a Europa, seria nesse ano um suplente de luxo, uma arma que, aos poucos, se tornaria nada secreta, o homem em cujo pontapé eram depositadas as esperanças vitorianas.

Tendo-se estreado logo na primeira jornada, naquela saborosa vitória em casa do eterno rival, graças a um golo superlativo de Adão, só à décima jornada festejaria um golo de branco vestido.

E que golo, digno da sua imagem de marca! O Vitória, que vinha de uma série inolvidável, tendo inclusivamente nesse período eliminado o Atletico Madrid, deslocava-se ao terreno do sempre difícil Rio Ave. Um jogo duro, de combate, com o vento a ditar leis e o inevitável Paulinho Cascavel a adiantar os Branquinhos quase no final da primeira metade. Contudo, os vilacondenses empertigar-se-iam para empatar a partida. Aí, já com o zairense em campo, que houvera substituído o compatriota N’ Dinga, um tiro absolutamente estrondoso, ainda que com aproveitamento do vento, serviria de cartão de apresentação do portento físico que o Vitória descobrira em África.

Um golo de autor, como quase todos os 11 apontados nessa época!

O zairense continuaria na sua senda de décimo segundo jogador…

Porém, com momentos inesquecíveis, capazes de entrar na lenda vitoriana, nas suas mais belas histórias.

O que dizer daquele jogo frente ao Sporting, em que lançado ao intervalo, com os Conquistadores a perder por uma bola a zero, enviaria semelhante bomba à baliza de Vítor Damas, fazendo ruir a muralha leonina e levando a nossa equipa a uma saborosa vitória? Ficaria para o mito popular, que “colou” o guardião do Sporting às redes, o que não é verdade. Porém, na força daquele tiro estava o sentimento e a vontade de 30 mil vitorianos a rematarem em simultâneo… N’Kama aplicava à bola a força de todos nós!

Seria assim durante toda a temporada… Um jogador sem a técnica individual de homens como Roldão, Adão, Ademir ou Cascavel, mas capaz de, pela força, ser um carro de assalto…uma imprescindível arma de arrombamento para deslindar os problemas mais intrincados, sempre com o sorriso de quem tem que aproveitar aquela oportunidade…quiçá, a de uma vida!

A segunda época, a nível individual seria o espelho do colectivo.

Apesar de jogar mais, o zairense reduziria a excelência do seu rendimento, apenas apontando 3 golos. Contudo seriam importantes, pois sempre que facturou o Vitória não perdeu. Assim, permitiria empatar, logo na primeira jornada, em casa frente ao Varzim e ajudou a dois triunfos, em Espinho, e frente ao homónimo sadino, no último golo de branco vestido.

Contudo, talvez, o seu jogo mais marcante pelo Vitória tenha sido o último…a titular, na final da Taça de Portugal, frente ao FC Porto. Como depositário da esperança de todos os adeptos, num miraculoso livre, que fizesse o caneco rumar, pela primeira vez, a Guimarães!

Não o conseguiria…e o golo no ocaso do desafio, apontado por Jaime Magalhães, diria que teríamos de esperar uns longos 27 anos para saber o que era abraçar o troféu da prova mais democrática do futebol português.

Seria o último jogo de N’Kama que partiria no final dessa temporada…contudo as recordações permanecerão em todos que presenciaram o seu tiro canhão e na memória colectiva de quem vai partilhando estas histórias de vitorianismo!

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