Recordar… o Vitória #69

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Um homem bom, honesto, íntegro! De outra cepa, em que a palavra valia mais do que a assinatura em qualquer papel!

Mas, acima de tudo, de uma competência inatacável ao longo de todo à sua carreira! Ainda que no Vitória tenha vivido, talvez, o maior dos seus fracassos como treinador.

Falamos de Vítor Oliveira, falecido recentemente, e que ficou conhecido como o “Rei das Subidas”, fruto de ter conseguido, por onze vezes, ser promovido ao escalão principal.

Porém, como dissemos, em Guimarães, essa carreira extraordinária sofreria um revés…talvez fruto da nossa tradicional impaciência, talvez pelo treinador, na altura um jovem técnico de 42, ainda não ter adquirido toda a sabedoria que, actualmente, lhe reconhecíamos, talvez porque assim tivesse de ser, já que na nossa vida nem sempre conseguimos levar o barco a bom porto!

Não obstante isso, a época prometia…e muito! Quinito, na temporada anterior, houvera conquistado um merecido quarto lugar, mas resolvera partir. Além deste, Pedro Barbosa e Pedro Martins haviam rumado ao Sporting. Apesar disso, os atletas que chegaram do Sporting, como Capucho, Edinho e Ramires, aliado aos antigos benfiquistas Neno e Vítor Paneira deixavam todos os adeptos da causa do Rei plenos de esperanças… era uma equipa capaz de afrontar qualquer adversário!

Para orientar estes jogadores, aos quais se juntavam nomes como Zahovic, Gilmar, José Carlos, Quim Berto e outros de qualidade indiscutível foi escolhido Vítor Oliveira, proveniente do Gil Vicente onde houvera conseguido estabilizar os Galos na, então, primeira divisão.

Porém, no Vitória nada correria como estava projectado.

Apesar disso, os Conquistadores até encetaram a liga de modo prometedor. Venceram no Alentejo, o Campomaiorense, no histórico jogo de estreia da equipa raiana no escalão principal, graças a um golo do brasileiro Emerson, bateu o Farense em casa por igual resultado graças a uma grande penalidade de Zahovic e iria empatar a um a casa do Benfica, num início de prova que desencadeava todos os sonhos.

Na verdade, foram cinco jogos sem conhecer o sabor da derrota, entre os quais se conta a estreia do técnico nas competições europeias com uma vitória por três bolas a uma sobre o Standard de Liége e que se reputaria importantíssima para passar a eliminatória, já que no Sclessin o Vitória empataria a zero, graças à, quase mais que provável, exibição da vida do guardião Neno.

Porém, no campeonato depois do bom início, a situação começaria a tornar-se periclitante. A inusitada derrota por quatro bolas a zero no Funchal, frente ao Marítimo na antecâmara da viagem à Bélgica, seguida de uma derrota caseira frente ao Salgueiros por duas bolas a uma e que, talvez, tenha aberto as portas do D. Afonso Henriques a Basílio Almeida, autor dos dois golos da vitória dos salgueiristas, fizeram temer o malogro da época. As críticas começaram a surgir, a impaciência a aparecer… e no horizonte estava o Barcelona treinado por Johann Cruyff, saído em sorte depois do sucesso frente ao Standard.

Atento a forma da equipa, os vitorianos preocuparam-se… ainda para mais, depois de uma infeliz segunda parte em Santo Tirso, onde o Vitória depois de chegar ao intervalo a vencer por duas bolas a zero (que grande golo, Edinho marcou nesse dia!), deixar-se-ia empatar a dois!

Seguia-se, pois, Barcelona e o Camp Nou! Apesar da desconfiança dos adeptos, a verdade é que teremos assistido a uma das maiores deslocações vitorianas na Europa do futebol, só suplantada pelas viagens a Londres e a Sevilha.

Naquele dia, a fé escreveu-se a cores brancas…e durante 45 minutos, a Europa abriu a boca de espanto. O Barcelona, baseado na Quinta del Calvo, onde pontificava Iván de la Penã, e onde Figo já ia fazendo miséria, durante aquela primeira parte foi reduzido à banalidade! A acrescentar a esse facto, as oportunidades desperdiçadas por Zahovic e Capucho, que como o jogo empatado a zero, poderiam ter desencadeado sentimentos de dúvida e de impotência nos blaugrana! Não o conseguiriam e no ocaso da primeira parte, o árbitro francês resolveria estrançalhar o bom desempenho vitoriano ao descortinar uma grande penalidade dúbia.

O Vitória acabaria por perder três bolas sem resposta mas deixara boa imagem!

Duas vitórias consecutivas pareciam demonstrar que esses 45 minutos iniciais de Camp Nou não tinham sido acidente… porém, o pior viria depois! A goleada caseira, por quatro bolas a zero, frente ao Barcelona e sem demonstrar os argumentos da primeira mão, seguida de um ponto nos três jogos seguintes da Liga fizeram accionar todas as sirenes!

O treinador estava a prémio… contestado por tudo e todos! Assim, nem mesmo o êxito na eliminatória da Taça de Portugal frente ao Paços de Ferreira e o sofrido triunfo frente ao Chaves serenaram os ânimos.

Aliás, estavam em ebulição, atendendo à propalada qualidade da equipa…

Seguir-se-ia Leça e tudo eclodiria…o golo de Constantino, a pálida exibição vitoriana levou a um ponto sem retorno, com alguns adeptos a discutirem vigorosamente com o treinador no seu regresso a Guimarães.

O fim estava próximo e seria carimbado na derrota seguinte, em casa, frente ao FC Porto, por duas bolas a zero.
Vítor Oliveira saía sem glória no seu projecto mais ambicioso até aquela data… haveria de trilhar um caminho que o tornaria grande: as subidas de divisão!

No Vitória, contudo, nunca perderia o respeito de quem com ele trabalhou: um homem sério, fiel aos seus princípios e abnegado…características que fazem falta a muitos dos actores do futebol português!

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