Recordar… o Vitória #81

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Voluntarioso…determinado…com uma alma quente apesar da formação nórdica, sueca.

Falamos do escandinavo Fredrik Soderstrom, uma das figuras mais marcantes do final do século XX vitoriano, um dos seus líderes do meio campo, um toque de qualidade excelsa em simbiose com a abnegação de jamais dar um lance por perdido.

Um verdadeiro operário qualificado, que, desde que na segunda metade da temporada de 1996/97 entrou em liça com a “armadura do Rei”, só a largando passados quatro anos e meios para rumar ao FC Porto, a custo zero.

Porém, o início da aventura vitoriana do jogador proveniente do IK Brage, nem foi fácil. Chegado em Janeiro de 1997, apenas estrear-se-ia a 16 do mês seguinte, jogando uns singelos 4 minutos, após substituir o avançado brasileiro Gilmar, numa vitória por três bolas a duas sobre a União de Leiria. Era o primeiro de 137 desafios de branco vestido!

Na semana seguinte, mais um passo na sua afirmação, com mais 15 minutos disputados. Aliás, Soderstrom, apenas, assumiria a titularidade nas últimas três jornadas do campeonato, sendo importante nessas pugnas para a conquista de um lugar europeu…e assumindo uma candidatura séria ao onze para o próximo exercício desportivo.

Assim seria… na época seguinte seria imprescindível. No ano encetado por Jaime Pacheco e concluído por Quinito nenhum dos dois técnicos prescindiu dos serviços do médio todo o terreno, que hoje mereceria o epíteto de “box to box.”

Fredrik conseguiria, pois, disputar quase todos os desafios dessa temporada, que, por essa razão, também foi na que festejou o primeiro da dúzia de golos que apontaria de Rei ao peito. Aconteceu na décima jornada do campeonato, frente ao Salgueiros, e os factos sucederiam rápido demais. O sueco estrear-se-ia a marcar na primeira jogada desse desafio, para ser expulso com vermelho directo por Paulo Baptista à meia hora… era o primeiro dos quatros vermelhos vistos com a camisola do Vitória.

Contudo, passada a suspensão, ocuparia o seu lugar na equipa, fazendo uma dupla de duros com o madeirense Marco Paiva, um trinco duro, coriáceo e que, em conjunto, com o herói destas linhas formava um inexpugnável tampão em frente dos defesas centrais. Aliás, seriam um dos garantes de uma equipa eficaz, que sofria poucos golos e era eficaz como poucas na história do clube.

Além disso, outro facto a merecer realce. Fruto do bom trabalho desenvolvido, tornava-se no mais novo internacional vitoriano, ao vestir a camisola amarela do seu país, em desafio particular contra a Itália. Era a primeira de cinco internacionalizações de um homem que caíra no goto dos vitorianos pelo seu espírito de conquista!

No ano seguinte, o sucesso seria menor. Ainda que Soderstrom tenha continuado a ser pedra basilar, inicialmente, no xadrez do sérvio Filipovic e depois do regressado Quinito, tendo marcado cinco golos, a verdade é que aquela tarde quente de Maio em Alverca, ditou o fim de uma sequência europeia de quatro temporadas consecutivas de apuramento para as provas da UEFA. Porém, dois momentos merecem realce na carreira do jogador. Mencionamos o golo apontado ao eterno rival na vitória robusta por cinco bolas a uma…seguida de nova expulsão, num dejá vu do sucedido quando marcara o seu primeiro golo pela causa do Rei e o decisivo bis na vitória por três bolas a duas frente ao Chaves, já depois de ter apontado um dos golos do êxito dos Branquinhos frente ao FC Porto por três bolas a duas.

O “Fredrik do Vitória” como era conhecido pela imprensa, era por estas alturas, reconhecidamente, um dos melhores médios-centro do futebol português, algo ainda mais notório pelo facto do seu pé esquerdo saírem passes teleguiados, desmarcações milimétricas e venenosos remates capazes de atormentar qualquer guardião contrário.

No ano seguinte, numa equipa rejuvenescida, assumiria o papel de farol, de bússola, destinada a guiar jovens como Meira, Pedro Mendes, Rego ou Lixa.

Seria uma temporada em que os jovens começariam a grande nível, mas que, posteriormente, fruto de momentos de ebulição que tiveram o seu ponto alto na partida de Meira para o Benfica e no adeus, para não mais voltar, do treinador Quinito, tudo se desmoronaria. O ano seria uma imensa desilusão, com os Branquinhos nas últimas oito jornadas da Liga a conseguirem alcançar, apenas, dois empates, contando por derrotas os demais jogos efectuados. Uma derrocada colectiva, a que o sueco com o seu labor procurou obstar, mas que pouco pôde fazer. Aliás, de todas as épocas que disputou na íntegra, foi a menos realizadora com, somente, um golo marcado na derrota por duas bolas a uma perante o Campomaiorense.

O ano de 2000/01 seria o último de Rei ao peito para o jogador. Apesar das inúmeras tentativas para que renovasse o seu vínculo contratual, jamais aceitaria fazê-lo, por já ter sido seduzido pelo clube presidido por Pinto da Costa. Assinaria pelo FC Porto, sem que o Vitória nada recebesse pela sua transferência.

Contudo, num ano negro, com três treinadores (Autuori, Álvaro Magalhães e, por fim, Augusto Inácio) seria uma das traves-mestras em que assentaria a salvação garantida na vitória por uma bola a zero frente ao Farense, com golo do holandês Romano Sion.

Soderstrom, esse, apesar de tudo, seria profissional até à sua última gota de suor. Aliás, seria determinante ao apontar 4 tentos numa caminhada árdua, pedregosa, mas, contudo, com momentos inesquecíveis. Na verdade, quem pode esquecer a estreia de Augusto Inácio, na Vila das Aves, em Domingo de temporal, com a inusitada aposta de Nandinho a lateral direito e que o Vitória haveria de triunfar por três bolas sem reposta, com golos nos últimos 12 minutos da partida, sendo um deles do sueco?

Aliás, haveria de apontar o último dos seus quatro tentos no êxito perante o Campomaiorense, na antepenúltima jornada do campeonato, num momento determinante para a permanência no principal escalão.

Fredrik haveria de partir para o Porto onde não se afirmaria. Errante, seria cedido, a título de empréstimo, ao Standard Liége, ao eterno rival do Vitória e por fim ao Estrela da Amadora.

Rumaria a Espanha onde actuaria nos escalões inferiores durante seis épocas, até regressar ao frio sueco para acabar a carreira.

Há-de, contudo, ser sempre o “Fredrik do Vitória”.

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