Recordar… o Vitória #87

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Uma carreira interrompida no seu apogeu. Em poucas palavras poderia, assim, ser definida a história futebolística de Augusto Silva, um jogador que brilhou no Vitória e que seria uma das primeiras grandes transferências do clube (conjuntamente com Pedras) para o Benfica.

Apesar de não ser natural de Guimarães, mas sim de Barcelos, Augusto chegaria a Guimarães aos 10 anos, para ficar a viver na casa do seu tio, Silva, na altura guarda-redes do Vitória e que haveria de desempenhar um papel relevante no gosto do jovem Augusto pelo futebol. Aliás, o jovem passaria a acompanhar o tio em todos os momentos da sua carreira.

Com o futebol a desempenhar um papel tão importante na sua vida, haveria de sentir inegável fascínio pelo jogo…e pela camisola branca com o Rei cozido junto ao peito!

Haveria jogar com ela pela primeira vez, aos 15 anos, ainda menino, nos juniores do Vitória, num derby da cidade, frente ao Desportivo Francisco de Holanda que na altura também se dedicava a tornar plausível a simbiose entre a bola e o pé.

No ano seguinte deu-se o primeiro momento oficial como atleta vitoriano, na posição que mais gostava, a interior esquerdo, ainda que por estas alturas actuasse preferencialmente como avançado, e com o seu inseparável número 7 nas costas. Encetaria aí a sua carreira na formação vitoriana, até cumprir o sonho de qualquer jovem que percorre os escalões de base vitorianos: chegar aos seniores.

Tal sucederia pela mão do treinador Fernando Vaz no, em 1957/58, o ano da subida dos Branquinhos ao escalão principal, depois de três anos na divisão secundária, num desafio contra o Sporting de Espinho.

No ano seguinte, já com o Vitória no escalão principal, Fernando Vaz sairia do comando técnico do clube, sendo substituído por Mariano Amaro. Logo na primeira etapa desse campeonato, Augusto Silva estrear-se-ia na primeira divisão. Porém, seria um momento duro…na Luz, frente ao Benfica, o Vitória seria goleado por sete bolas sem resposta e desse jogo ressalta um momento curioso, pois, colocado numa posição mais recuada do terreno, seria incumbido da marcação a António Mendes o “Pé Canhão”, na altura no Benfica, e que haveria de se tornar lenda em Guimarães.

Porém, o ano nem correria mal. Com Ernesto, Carlos Alberto, Edmur ou Rola a atormentarem as defesas contrárias, o treinador decidiria apostar no jovem Augusto na sua posição favorita: mudar-lhe-ia o futuro, tornando-o num dos bons médios do futebol nacional.

A temporada seguiria sem se afirmar, cumprindo apenas mais um jogo. Tal como na seguinte, sendo que em ambas os problemas no menisco levá-lo-iam a ter de ficar na bancada por muito tempo.

Aliás, agravaria mesmo a sua lesão, num curioso momento. Tendo o Vitória, no final dessa temporada de 1960/61, agendada uma digressão a África, iria cumprir o seu sonho de conhecer mundo. Mas, o joelho não dava tréguas, as dores era muitas e, antes, dos Branquinhos partirem, o jogador foi mandado a um médico no Porto para ser observado. Apesar dos testes efectuados e das dores sentidas, a toda as perguntas respondeu que não, ainda que a morder o lábio pelas muitas dores que sentia.

Assim, ainda conseguiria jogar com as cores do Vitória em Joanesburgo, Luanda, Lourenço Marques (actual Maputo). Aí seria o final do sofrimento…não conseguia mais…seria enviado para Guimarães, para, imediatamente, ser operado!

No ano seguinte, mais do mesmo…depois de recuperado, num desafio perante o Arcos de Valdevez, pela equipa de reservas, ao saltar com um adversário, caiu mal, sobre o joelho! Depois de muitas dores, o diagnóstico seria inapelável: era, novamente, o menisco que dava de si!

Não obstante isso, haveria de voltar cheio de força, também, graças ao treinador Artur Quaresma que acreditava no talento do jovem, que haveria de marcar o seu primeiro golo pelo Vitória, num saboroso triunfo por duas bolas a uma frente ao Benfica…aliás, os encarnados sempre desempenharam um papel relevante na carreira do jogador, pois estreou-se na primeira divisão contra eles, a eles marcou o primeiro golo e para eles haveria de ser transferido, para, também, neles acabar abruptamente a carreira.

A temporada de 1961/62 seria a última no Vitória. Um ano sofrido, em que o Vitória só lograria a salvação na última jornada, ao vencer o FC Porto por uma bola a zero, com golo do herói destas linhas, o último da mão cheia apontados nesse ano.

Porém, individualmente, para além desse momento, refulgiria com mais quatro golos e jogadas de eleição. FC Porto e Benfica lutariam pela sua contratação. Venceriam a contenda os encarnados que pagariam por ele e por Pedras 1250 contos, enviando três jogadores para o Vitória (com destaque para Manuel Pinto), recebendo o jogador um belo prémio de assinatura de 400 contos.

No Benfica jogaria até 1967. Nesse ano, numa digressão à América do Sul, no Chile, sofreria o incidente que mudar-lhe-ia a vida. Um trombose cerebral que o deixou com uma paralisia parcial do corpo e cujo título do jornal A Bola definiria na perfeição ao escrever “Acordar morto para o futebol”.

O Benfica lançar-lhe-ia a mão, dando-lhe emprego…perdido o futebolista, salve-se o homem e a sua família, pois Augusto tinha um filho pequeno para criar.

Porém, o Vitória não o haveria de esquecer, tendo, inclusivamente, realizado um jogo de homenagem, com a receita a reverter para o antigo jogador, frente ao Benfica e onde o mesmo actuou, ainda que debilitado.

A vida muda quando menos esperamos…ficam os momentos de um jovem que quis seguir as pisadas do seu tio, lutou contra diversos infortúnios, salvou o Vitória da descida ao tirar um título nacional ao Porto e que, quando chegava ao apogeu, foi rasteirado! A vida é uma montanha russa…

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