Rui Machado alerta: “O problema do Vitória não é a dívida, é o modelo”

Aos 55 anos e meia vida de sócio do Vitória, Rui Machado colocou a hipótese de se candidatar às eleições do próximo sábado, 13 de junho. Mas, perante as quatro candidaturas entretanto surgidas recuou. Empresário e gestor de várias empresas onde é sócio “todas de boa saúde”, garante, Machado entende que o “o verdadeiro problema do Vitória não é a dívida em si, mas sim o quanto a dívida cresce mais depressa do que a capacidade do clube para criar valor e gerar riqueza de forma sustentável”. É a partir dessa premissa que deixa algumas ideias sobre o que poderá vir a ser o futuro do clube.

© Rui Machado

Surgiram notícias sobre uma sua candidatura às eleições do Vitória. Por que não avançou?

Porque achei que não era o momento certo. Eu tenho uma visão muito clara para o Vitória e não queria entrar numa eleição apenas para marcar posição ou ganhar protagonismo. Se avançasse, era para executar um projeto profundo de transformação do clube e da SAD. E sinceramente acho que hoje ainda não existe maturidade suficiente no universo vitoriano para aceitar algumas mudanças estruturais que considero inevitáveis. Ganhar eleições e depois não conseguir executar o programa por bloqueio em Assembleia Geral seria irresponsável. Preferi ser honesto com os sócios e comigo próprio.

Desde a saída de Júlio Mendes que se passou a falar de um Vitória em pré-falência. É mesmo assim ou há algum exagero?

A palavra pré-falência é forte demais, mas negar as dificuldades também não ajuda. O Vitória vive há vários anos sob forte pressão financeira e o mais preocupante é que essa realidade atravessa diferentes direções. O clube continua vivo, competitivo e com ativos muito fortes, mas precisa de uma reorganização séria e estrutural. Quando os mesmos problemas regressam sucessivamente, a questão deixa de ser quem está a gerir e passa a ser qual é o modelo que estamos a seguir. O Vitória continua a ter ativos extraordinários, uma massa associativa única, uma marca forte, uma academia reconhecida e uma cidade profundamente ligada ao clube.

“O problema é a dívida crescer mais depressa do que a criação de valor”

O problema é que ainda não conseguimos transformar todo esse potencial em capacidade financeira sustentável. Temos vivido demasiado dependentes de vendas de jogadores e de soluções de curto prazo. Isso permite-nos sobreviver, mas não nos permite crescer. Por isso, a pergunta não é se o Vitória está em pré-falência. A pergunta é se o modelo atual permite ao clube ser mais competitivo, mais estável e mais ambicioso nos próximos 20 anos. Eu acredito veemente que não. O Vitória não precisa de ser salvo, precisa, sim, de criar uma nova base de crescimento que lhe permita deixar de viver em permanente sobressalto financeiro.

O empresário Pinto Brasil emitiu um comunicado dramático sobre a realidade Vitoriana. Comunga desse dramatismo?

Percebo a preocupação dele e acho que muita gente sente o mesmo. Agora, eu tento sempre separar emoção de análise. O Vitória não precisa de dramatização constante, porque isso fragiliza ainda mais o clube, o Vitória precisa de muita lucidez. Há problemas sérios? Há. Mas também há potencial enorme. O pior que podemos fazer é viver entre o alarmismo e a ilusão.

Afinal qual é o passivo consolidado (Clube e SAD) do Vitória?

Neste momento ainda não disponho de toda a informação necessária para responder com rigor absoluto a essa questão. Mais, os números variam consoante o momento contabilístico, mas o essencial é perceber que o problema não é apenas o valor absoluto da dívida, é sobretudo a capacidade de o Vitória gerar receitas recorrentes para sustentar a operação sem viver permanentemente em emergência financeira. O foco devia estar menos no número exato e mais na criação de um modelo sustentável.

© Rui Machado

Dito isto, com base na informação pública disponível, nas contas divulgadas e nos números que têm sido referidos por diferentes intervenientes ligados ao universo vitoriano, a minha perceção é que o passivo consolidado poderá situar-se entre os 80 e os 90 milhões de euros. É um valor preocupante. Não apenas pela sua dimensão, mas sobretudo porque resulta de um período em que o Vitória realizou algumas das maiores vendas de jogadores da sua história e gerou receitas extraordinárias sem precedentes. É difícil para qualquer sócio perceber como é que, após os melhores resultados de sempre em vendas extraordinárias, chegamos a uma situação em que o passivo continua a crescer de forma tão significativa.

“Passivo do Vitória poderá rondar os 80 a 90 milhões de euros”

Mas então o que se passou?

Não faço julgamentos precipitados sem conhecer todos os dados, mas é evidente que a próxima direção terá de explicar com total transparência como chegámos aqui e, acima de tudo, apresentar um plano credível para inverter esta trajetória. Quem assumir a liderança do Vitória terá primeiro de fazer um levantamento exaustivo da situação financeira real do Clube e da SAD.

Agora, com toda a certeza, o verdadeiro problema do Vitória não é a dívida em si, mas sim o quanto a dívida cresce mais depressa do que a capacidade do clube para criar valor e gerar riqueza de forma sustentável. Os sócios têm que perceber que mais do que discutir números exatos, importa perceber as causas. Se um clube gera receitas recorde e, mesmo assim, não consegue consolidar a sua posição financeira, então temos de questionar o modelo de gestão que foi seguido.

Das quatro candidaturas que vão a sufrágio há alguma na qual veja possibilidade de inverter esta realidade de que tanto se fala?

Vejo pessoas competentes e boas intenções em todas as listas. Mas sinceramente ainda não ouvi ninguém assumir de forma totalmente frontal aquilo que eu acho inevitável. O Vitória precisa de escala, precisa de capital, de profissionalização, sobretudo na gestão, e estabilidade societária. Continuamos muito presos à lógica eleitoral e emocional. E os problemas do Vitória exigem uma visão mais empresarial e estrutural.

Há quem refira que quatro listas é vitalidade. E há quem diga que se trata de fragmentação. Qual é a sua opinião?

Acho que há um pouco das duas coisas. É positivo haver participação, pessoas disponíveis para assumir responsabilidades e diferentes visões para o futuro do clube. Isso demonstra que o Vitória continua vivo e mobilizador. Mas também seria ingenuidade ignorar que as quatro listas refletem o estado atual do Vitória, um clube profundamente dividido e sem uma visão estratégica consensual para o seu futuro. Infelizmente, a desunião tem sido uma constante da vida vitoriana.

© Rui Machado

Vivemos demasiado em função das emoções do momento. Quando os resultados aparecem, acreditamos que todos os problemas estão resolvidos. Quando os resultados desaparecem, voltamos a discutir tudo desde o início. E, ao longo dos anos foi sendo vendido aos sócios uma espécie de milagre dos resultados. A ideia de que uma boa época, uma venda importante ou uma qualificação europeia resolveriam os problemas estruturais do clube. Mas a realidade demonstra precisamente o contrário.

Então qual devia ser a estratégia?

O Vitória teve momentos desportivos positivos, realizou vendas extraordinárias de jogadores e, mesmo assim, continuamos a discutir os mesmos problemas financeiros, organizacionais e estratégicos. Isto acontece porque os resultados são uma consequência da estrutura, não o contrário. Os clubes que crescem de forma consistente constroem primeiro bases sólidas, estabilidade, organização e capacidade financeira. Depois os resultados aparecem com maior regularidade.

“Há participação, mas também muita fragmentação no Vitória”

Digo-lhe, o que eu gostava de ver no Vitória era menos discussão sobre pessoas e mais discussão sobre modelo. Menos dependência do resultado do próximo domingo e mais preocupação com o clube que queremos ter daqui a dez ou vinte anos. A verdadeira união não se constrói à volta de uma candidatura. Constrói-se à volta de uma visão comum para o futuro do Vitória. E hoje, infelizmente, ainda estamos longe desse ponto.

Vê possibilidade de uma fusão entre as quatro listas?

Sinceramente, nesta fase parece difícil. Há diferenças pessoais, estratégicas e até emocionais muito grandes. Mas gostava de ver mais capacidade de convergência depois das eleições. O Vitória não pode continuar permanentemente dividido entre eleições.

O Vitória tornou-se um permanente sobressalto económico-financeiro. Como se pode inverter essa realidade?

Com estabilidade e sobretudo racionalidade. O Vitória precisa primeiro de construir base. Uma estrutura forte, uma liderança coesa, uma organização profissional, e decisões técnicas sempre alinhadas com uma visão de longo prazo. Só depois vem o sucesso desportivo consistente que todos queremos. Nós em Guimarães ainda achamos que o futebol resolve tudo sozinho. Não resolve. O futebol é consequência da estrutura e não o contrário.

Como se pode transformar o capital-emocional “O Vitória é nosso” em capital-dinheiro?

Essa é a grande questão. O Vitória tem uma força emocional brutal, mas precisa de transformar essa paixão em investimento, consumo, participação empresarial e capacidade económica. O adepto não pode aparecer só no estádio e nas redes sociais. O clube tem de criar mecanismos modernos para mobilizar empresários, investidores e comunidade local. O sentimento tem de passar da bancada para a economia do clube.

Afinal que desenho de projeto tinha, ou tem em mente, que possa dar dimensão e sustentabilidade económica ao Vitória?

Eu defendo um modelo muito claro: um Vitória próximo dos sócios, forte na identidade e ambicioso desportivamente, mas totalmente racional na gestão. Defendo uma SAD capitalizada, profissional, com investidores fortes, mas mantendo uma maioria agregada entre clube e tecido empresarial local. O Vitória precisa de músculo financeiro para competir, crescer em infraestruturas, estabilizar tesouraria e deixar de viver em sobressalto.

© Rui Machado

O grande desafio do Vitória é perceber que proteger o clube não é fechar portas ao investimento. É exatamente o contrário. É criar condições para o clube sobreviver e crescer nas próximas décadas. O meu projeto parte de uma ideia simples: o Vitória não pode continuar a pensar como um clube grande e a financiar-se como um clube pequeno. Durante muitos anos fomos tentando resolver os problemas de amanhã com receitas de hoje. Vendemos jogadores, antecipamos receitas, adiamos decisões e voltamos ao mesmo ponto. Isso não é uma estratégia, é sobrevivência.

Mas como se pode fazer isso que está a referir?

Eu vejo um Vitória assente em três pilares: O primeiro é identidade. O Vitória tem de continuar a ser o clube de Guimarães, dos seus sócios, da sua massa adepta e dos seus valores. Isso não está em discussão. O segundo é profissionalização. O clube precisa de uma estrutura moderna, competente e estável. As pessoas passam, os presidentes passam, os treinadores e jogadores passam, mas a organização tem de ficar.

“O Vitória não pode continuar a pensar como clube grande e financiar-se como clube pequeno”

Os clubes que ganham de forma consistente são os que têm melhores estruturas, não os que têm melhores promessas ou discursos. O terceiro é capital. E aqui está a grande diferença. Eu não acredito que o Vitória consiga dar o salto que todos desejamos apenas com os recursos atuais. Precisamos de atrair investimento, conhecimento, rede internacional e capacidade financeira. Precisamos de parceiros que ajudem a acelerar o crescimento do clube.

Isso poderia afetar o controlo da SAD, não acha?

O modelo que defendo passa por uma SAD forte e capitalizada, onde o controlo estratégico permaneça ligado ao universo vitoriano através da ligação entre clube e tecido empresarial da região, mas onde exista também investimento profissional capaz de trazer escala e competitividade. O grande objetivo não é vender o Vitória. O grande objetivo é fazer o Vitória crescer. Eu quero um clube que deixe de discutir todos os anos se consegue pagar as contas e passe a discutir como chega regularmente à Europa, como valoriza a sua academia, como melhora as suas infraestruturas e como aumenta a sua dimensão nacional e internacional.

Porque a verdade é que o Vitória tem dimensão emocional para estar entre os maiores. O que lhe falta é construir a dimensão económica que sustente essa ambição. E essa é a batalha que, mais tarde ou mais cedo, o clube vai ter de enfrentar. A diferença está em fazê-lo por visão ou fazê-lo por necessidade. Eu prefiro fazê-lo por visão.

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