Retrato dos homens e mulheres de Guimarães

Chamamos retrato a este olhar sobre os homens e mulheres de Guimarães porque coloca em destaque, como os retratos procuram fazer com o rosto de quem é fotografado, pintado, representado em geral. Podíamos também, talvez até com mais propriedade, chamar-lhe instantâneo, porque aquilo que aqui temos é uma impressão sobre o que os homens e mulheres de Guimarães são – neste ponto no tempo – no final da segunda década do século XXI.

Foto: Joana Meneses

Construímos o instantâneo com base num conjunto de indicadores sobre os homens e mulheres de Guimarães, percorrendo cinco áreas que definem muito daquilo que são as vidas contemporâneas: natalidade, escolaridade, emprego, rendimento e população.

Relativamente à natalidade, nascem consistentemente, desde 2010, mais homens que mulheres, em Guimarães. Neste período, o único ano em que nasceram mais meninas (660) que meninos (653), foi em 2016. Em todos os outros anos, embora a diferença fosse sempre curta, nasceram sempre mais bebés do sexo masculino. O ano de 2019 não foi exceção, nasceram 657 meninos e apenas 590 meninas. Não deixa de ser curioso que no final da vida, fruto de uma maior esperança de vida, as mulheres acabem por estar em maioria.

As matriculas no ensino pré-escolar refletem ainda este equilíbrio entre a população do sexo masculino e feminino. Este é mesmo o gráfico em que mulheres e homens aparecem em maior igualdade, reflexo de uma generalização deste grau de ensino.

O sociólogo, Esser Jorge, não tem dúvidas, “a pirâmide etária vimaranense tem um desenho típico de uma pirâmide a caminho de uma população envelhecida”. O gráfico começa não corresponder ao nome (a forma já não se parece com uma pirâmide). Agora a base é estreita e o corpo alarga, uma evidência da “alteração radical nos comportamentos da fecundidade e natalidade”, explica Esser Jorge.

O sociólogo vai além do instantâneo para reflectir sobre uma mudança que se produziu ao longo dos últimos 45 anos. Antes de 1974, “a base da pirâmide era a de um concelho com uma população jovem e com bastantes nascimentos em cada série”. O momento em que tudo muda, explica Esser Jorge, coincide com a década de 1980. O sociólogo lembra que as pirâmides etárias com bases largas, que vão estreitando até ao topo, “aparecem em sociedades empobrecidas, com muitos nascimentos, elevada taxa de mortalidade infantil e baixa esperança de vida à nascença”. Este é, portanto, o retrato de uma sociedade mais rica do que era no passado, sem dúvida.

É visível uma mudança que se introduz na sociedade vimaranense há 45 anos.

Antes dessa data (1974) a base da pirâmide era a de uma um concelho com uma população jovem e com bastantes nascimentos a cada série. Por regra, esse tipo de formato piramidal aparece nas sociedades empobrecidas, com muitos nascimentos, elevada taxa de mortalidade infantil e baixa esperança de vida à nascença.

Esser Jorge coloca o assento tónico no Sistema Nacional de Saúde, no planeamento familiar, na universalização das consultas materno-infantis, na melhoria generalizada das condições de vida e na “libertação da malha mental da mulher como ‘fada do lar’”.

Os nascimentos que vinham em quebra desde 1980-1984, acentuando-se até 1990, tiveram uma pequena recuperação nos anos seguintes (1995-1999). Foi sol de pouca dura, os números voltaram a baixar no principio do século, mantendo-se até aos dias de hoje.As duas primeiras séries da pirâmide etária (0-4 e 5-9 referente a 2015-2019) deixam claro que a quebra da natalidade, em Guimarães continua.

Se é verdade que se nasce menos, é também verdade que se vive mais. As mulheres levam a taça da esperança de vida à nascença. Para uma menina nascida em 2019, em Guimarães, a esperança de vida passa dos 83 anos, mais cinco anos que um menino nascido na mesma altura. O certo é que, para eles e para elas, a esperança média de vida tem estado sempre a aumentar. O largo corpo da pirâmide que hoje faz parte da população adulta (ativa), caminha a passos largos para a velhice. Este aumento da esperança média de vida, conjugado com uma baixa natalidade ameaça tornar a pirâmide num cogumelo, no espaço de alguns anos. “Caso os nasimentos continuem a diminuir à velocidade dos últimos anos e a esperança de vida continuar a aumentar, os vimaranenses terão, daqui a 20/30 anos, um grave problema de sustentabilidade populacional”, assinala Esser Jorge.

Durante muitos anos, o ensino foi um território (como muitos) masculino. Às raparigas estava reservada uma instrução mínima. Quando os rapazes já faziam a quarta classe, elas ainda ficavam pela terceira, isto quando chegavam a por os pés na escola e foi assim que o país chegou ao 25 de abril, com taxas de analfabetismo absolutamente devastadoras. Quando se olha para os níveis de escolaridade da população ainda se notam as marcas deste tempo.

Apesar de as mulheres estarem hoje em larga maioria entre os alunos matriculados nas universidades ( 68 587 contra 57 726 homens) e de serem elas quem obtém o maior número de diplomas académicos superiores (16 274 contra 11 536), elas ainda constituem a maioria da população analfabeta. Nos censos de 2011, a população analfabeta feminina (4 221), em Guimarães, era mais do dobro da masculina. Este efeito, potenciado pela maior longevidade das mulheres, é também visível nos números da população com graus de escolaridade mais baixos, 1º ciclo de EB e 2º ciclo do EB, em que elas estão em clara maioria. No 3º ciclo do EB os números começam a equilibrar-se entre os dois sexos e com o secundário ou superior concluído, as mulheres voltam a ultrapassar os homens, neste caso por efeito de uma população mais jovem.

Esser Jorge, que em tempos estudou com profundidade as populações de trabalhadores do concelho, fala do apelo da industria da construção civil, entre as classes mais humildes, que retira muitos jovens da escola precocemente. O certo é que com mais diplomas superiores, não surpreende que as mulheres estejam em grande maioria na administração pública local, que normalmente abre vagas que exigem mais qualificações (são 940 para apenas 713 homens). Esta presença na administração pública não chega para fazer pender a balança da remuneração média mensal a favor das mulheres, nem tampouco consegue equilibrá-la.

As mulheres ganham, em média, menos quase 76 euros que os homens. Como estamos a falar de salários médios baixos, isto é muito significativo. Entre o emprego feminino, o têxtil pesa muito em volume e neste setor os salários são habitualmente baixos.

“Os números do RMG e RSI revelam como a pobreza ainda é um fator muito presente, tanto para homens como para mulheres”, sublinha Esser Jorge. Ainda assim, as mulheres além de ganharem menos, aparecem mais expostas a situações de desemprego. “Há duas explicações – afirma o sociólogo – “por um lado, a pressão social dos filhos que é, ainda hoje, motivo que interfere na vida profissional. Por outro lado, o facto de grande parte das mulheres trabalharem no têxtil, particularmente na indústria de confeções, setor que decapitais muito ténues e periclitantes que vai ao sabor dos ventos da economia.”

Mais bem formadas, a viverem mais e a ganharem menos, as mulheres estão em maioria entre a população vimaranense, há 10 mulheres para cada nove homens, mais 3 712 mulheres recenseadas que homens (ao cuidado dos nossos políticos).

Os números de que se fala neste artigo estão disponíveis para quem os quiser consultar, na página da Pordata. Aquilo que fizemos foi reuni-los numa só lugar e dar-lhes um aspeto gráfico mais apelativo. Mais do que dar respostas, este retrato procura levantar questões.

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