Rodrigo Areias: “Aquilo que me move em fazer cinema é comunicar”

O Bando à Parte está entre as melhores produtoras cinematográficas portuguesas e as suas produções alcançaram já vários prémios internacionais. Sediado em Guimarães, tem como principal rosto Rodrigo Areias, que esteve à conversa com a Mais Guimarães.

“Um conjunto alargado de pessoas” é como Rodrigo Areias descreve o Bando à Parte. A ele, junta-se Pedro Marinho, Carlos André e Ricardo Freitas: o quarteto permanente no escritório em Guimarães. Mas há ainda outros elementos que não estão em permanência, quer na Cidade Berço, quer na Invicta e na Capital.

“Da necessidade de fazer filmes” surge o projeto de criar uma produtora cinematográfica, nos anos 90, conta Rodrigo Areias, que começou como músico e editor de música. É nessa área que percebe “que viver ancorado em sonhos não é assim tão difícil” e que quer fazer cinema “para a vida toda”. Assume, assim, a sua maneira de estar na vida: “não estar à espera de que ninguém resolva os problemas”.

“Mais estruturas de produção a norte é fundamental para o desenvolvimento da atividade cinematográfica de forma descentralizada”

Rodrigo Areias

Sobre estar sediado numa cidade como Guimarães diz que, “numa fase inicial, é muito mais complicado produzir filmes a partir de um do meio descentralizado”. O grande objetivo era “garantir que passava a ter os meios de produção e os meios de pós-produção”. Hoje é mais fácil e faz parte da “responsabilidade de cada um” não ceder à tentação de centralizar tudo em Lisboa.

Atualmente a produtora quer, “mais do que a quantidade, fazer filmes maiores e apostar violentamente na internacionalização”. Para isso, investe em coproduções com países estrangeiros, criando uma rede de contactos internacionais mais forte.

Embora este não tenha sido o primeiro prémio em Veneza, foi com Listen que houve alguma mudança a nível de comunicação nacional e, como consequência, a nível interno. Já a nível internacional, diz Rodrigo Areias, “é apenas mais um degrau”. Este ano, há novos filmes a estrear lá fora, “fruto de um trabalho permanente”. Marcar presença em festivais internacionais é uma coisa constante na história da produtora, e, por isso, não foram estes prémios que aumentaram a sua projeção.

“Descreve aquilo que é típico em qualquer meio pequeno”, é a forma que arranja para se referir ao filme Surdina, gravado em Guimarães. “As pessoas identificam-se com este microcosmo como quaisquer microcosmos. No fundo, é uma metáfora universal sobre os meios pequenos”. Mas há mais, “tem a ver com uma questão fundamental, se há um tempo para amar ou para sermos felizes”.

É nisso que os portugueses acreditam, que, chegando a uma certa idade, não há mais espaço para ter novos amigos, namoradas ou namorados, para conhecer coisas novas. “Um flagelo social que só geracionalmente é que iremos ser capazes de resolver. Efetivamente, o filme é sobre isso, soltar amarras, prisão social, alguém libertar-se disso e ter o direito de ser feliz, independentemente da idade que tem”.

A autoestima de uma cultura e de um país

Não tendo hipótese de aceitar tudo, Rodrigo Areias tem tentado “ajudar pessoas a criarem estruturas de produção e que entendam que a solução não está aqui, mas sim na vontade de fazer”. A solução passa, muitas vezes, por emprestar algum material para que outros possam também produzir e “levantar voo”.

O cinema em Portugal “está bem e recomenda-se”, mas se “compararmos com terceiros ou com outros países internacionais, somos uns pobretanas, uns desgraçados. Se nos compararmos a nós mesmos, é um processo evolutivo. Nunca correu tão bem”. Hoje há financiamento, mais programas e concursos para que as produtoras mais novas possam entrar no mercado de trabalho.

Nas novas plataformas, vê oportunidades e problemas. “Com certeza muitos produtores irão produzir”, mas há “problemas de limitação, nomeadamente naquilo que é o princípio que os rege, o princípio do algoritmo”. O que interessa ao produtor quando faz cinema “é comunicar, e comunicar não é propriamente entreter, são coisas distintas”. Dá o exemplo de Listen, recordando a energia e insistência de Ana Rocha: “aquilo que me fez querer produzir o filme era aquilo que o filme tinha para dizer ao mundo”.

Talvez o futuro traga “um grande épico sobre Afonso Henriques”. A escrita e o desenvolvimento já foram feitos, mas ainda está “a ser preparado”, assim como uma série sobre Guimarães e a zona norte “para os 50 anos do 25 de abril”. Considera ter que “exercer a influência para garantir que as pessoas não se esquecem do que é que é o nosso passado”. É essa, também, a responsabilidade do cinema, “a manutenção da história e da criação de memória”.

Há agora muitos filmes a terminar e muitas estreias que se viram adiadas. Entre risos e uma lista enorme de filmes que podemos ver no futuro, Rodrigo Areias afirma: “de repente nós começamos a fazer concorrência a nós mesmos em festivais”.

Em relação ao cinema português e à sua relação com o público, existe um problema de distanciamento. As pessoas habituaram-se às “grandes produções americanas” e, face ao não financiamento daquilo que são as produções portuguesas, ficam sempre numa “perspetiva de comparação injusta, no mínimo”. Houve, para o produtor, “uma incapacidade de reação cultural e de defesa cultural” daquilo que é português. De uma forma “avassaladora”, acredita que Portugal foi “tomado por outras culturas”, algo muito difícil de se combater.

Há ainda uma dificuldade de as pessoas se verem ao espelho. Acha que as pessoas “têm uma dificuldade de gostarem de serem portuguesas e isso não tem nada a ver com o porem bandeiras na janela, tem a ver efetivamente com a dificuldade autocrítica e com a dificuldade do olharem no espelho e gostarem pouco daquilo que vem”. Fala em autoestima da cultura e do país. “O cinema português não fala sobre cowboys no Arizona, fala sobre os nossos problemas e as nossas feridas, e as nossas feridas somos nós mesmos”.  É, por isso, firme no seu objetivo de manter aquilo que faz, da forma que faz, e tentar chegar a mais público, conseguindo “melhor promoção, melhores meios de comunicação, melhor forma de acessibilidade” e nunca “baixar o nível intelectual”.

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