Sara Barros Leitão: “Podermos voltar a estar juntos numa sala de teatro é de comemorar”

A atriz e encenadora Sara Barros Leitão irá dirigir o Teatro Oficina em 2022, uma ideia que já estava a ser trabalhada há um ano. O anúncio foi feito ao final da tarde de quarta-feira, 26 de janeiro, no Espaço Oficina, um lugar que Sara Barros Leitão já considera “casa”.

© Joana Meneses / Mais Guimarães

“O ano do nosso desconfinamento” dá o mote para um ciclo de atividades para o Teatro Oficina em 2022. “Aquilo que nós queremos é voltar a estar”, referiu Sara Barros Leitão. “Queremos voltar aos teatros cheios, aos encontros no foyer, aos ensaios sem viseira”, lê-se na “última hora”, a nova forma de anunciar tudo o que vai acontecer no Teatro Oficina. Um jornal que “sai quando tiver o que noticiar, talvez todos os meses, talvez mais do que uma vez por mês, talvez de 15 em 15 dias, talvez de três em três meses. É de última hora, por isso é quando houver o que noticiar”.

We’ll meet again (Vamos encontrar-nos outra vez), de Vera Lynn, foi a deixa para a atriz e encenadora montar o cenário com objetos que encontrou no Espaço Oficina e que definem o programa que pensou. “Escolhi esta música por várias razões”, começou por explicar. “É incontornável falarmos da pandemia, é o que mais temos ouvido falar e até muito pela comunicação social com uma linguagem muito bélica desta guerra, desta batalha que vamos vencer contra este inimigo invisível e somos todos soldados”, referiu lembrando que esta música se tornou um símbolo de esperança durante a II Guerra Mundial. Por outro lado, “todos queremos muito voltar a qualquer coisa, dar beijos na boca, abraçar”, acrescentou.

Sara Barros Leitão diz trazer consigo “a coisa mais simples do mundo, que é fazer teatro”. Como diz Umberto Eco, “os livros, o martelo, a tesoura são aquele tipo de coisas que, depois de inventados, é difícil voltar a fazer outra coisa melhor”. E é assim que a atriz vê o teatro, “depois de inventado, é difícil fazer melhor que aquilo”.

No “privilégio imenso” que é estar sozinha num teatro, percebendo “o que o espaço guarda e o que pode ser”, a encenadora desenvolveu as suas ideias para 2022. Acredita que o Teatro Oficina deve voltar àquilo que é o labor e o fazer teatral. “O teatro funciona como o centro de todo o pensamento que irá ser trabalhado aqui”.

Um sítio de criação

Para a atriz, “só conseguimos ter um espaço de liberdade se pudermos ter espaço para ser contaminados com o que acontece agora no mundo” e o Espaço Oficina representa, precisamente “aquele lugar em que o que acontece pode ser refletido com o que acontece aqui dentro”.

Um podcast foi a primeira ideia que Sara Barros Leitão desvendou. Chama-se “Tentativa-Erro” e reflete aquilo que é o pensamento, apresentando-se como “uma espécie de eixo central do que acontece no Teatro Oficina”, sem duração ou datas definidas.

“Andei a ver todos os armários que encontrei e descobri uma série de livros soltos pelos armários e coleções inacabadas. Há uma espécie de uma coleção de várias coisas. Quando olhei, de repente, para esta quantidade de livros, pensei, está aqui uma quase biblioteca”. Foi assim que a nova diretora artística apresentou a segunda proposta, uma “anti biblioteca cheia de livros que nunca ninguém leu”. Entre chá, biscoitos, vinho quente, mantas no chão e almofadas, serão lidos esses mesmos livros, em voz alta.

Sara Barros Leitão descobriu ainda um espólio solto que não está organizado. “Queremos fazer uma ficha para cada figurino para que consigamos saber onde é que ele pertence para que dessa forma possamos dar mais vida àquilo que é a nossa memória coletiva”, explicou.

Há uma “responsabilização” daquilo que é o Teatro Oficina com a forma de “pensar o teatro e com a sua geografia”, uma vez que Guimarães tem várias escolas de teatro à sua volta. As Jornadas de Teatro foram pensadas por isso mesmo. Nestas jornadas, será abordado “aquilo que toda a gente quer saber, mas ninguém ensina”.

© Joana Meneses / Mais Guimarães

Olhando para Guimarães como o centro de dois mapas mundo, a Rota do Algodão e a Rota da Emigração, Sara Barros Leitão vai criar um espetáculo. “Numa cidade onde não há mar, mas onde qualquer pessoa sabe o significado de saída e de regresso”, levantou-se o véu de uma criação original que tem já uma data de estreia, 22 de setembro, escrita e encenada pela própria para três atrizes. Ficará em cena três semanas, mas, e tal como o título provisório, “Há ir e voltar”, o tempo que estará em cena pode mudar.

Espaço Oficina, “a melhor coisa que podem dar a um artista”

“Podermos voltar a estar juntos numa sala de teatro é sempre de comemorar”, destacou a agora diretora artística do Teatro Oficina dando ênfase àquela sala em particular, o Espaço Oficina. “Tudo vai acontecer neste espaço como epicentro da ação. Quase como as trincheiras daquilo que pode ser a preparação de uma revolução”.

Acreditando que muitos nunca ali tinham ido e que muitos outros guardam ali as melhores memórias das suas vidas, Sara Barros Leitão deu ênfase ao “paradoxo de quem não conhece e de quem viveu aqui as mais belas histórias de amor, de quem roubou beijos a sair do camarim, quem se estreou no palco” e explicou que vê o Espaço Oficina como “o início e o centro de tudo”.

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