“Síncope”, de Carlos A. Correia: a banda sonora para o que fomos e a reflexão para o que seremos

Disco do também diretor do projeto Outra Voz estava preparado antes da pandemia, mas cola-se à realidade que hoje se vive como se fosse concluído hoje. “Síncope” conta com o selo da Discos de Platão.

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“Já se antecipava uma queda”, diz Carlos A. Correia. A vida que existia antes da pandemia que fechou mais de metade da população mundial em casa era “acelerada”, uma “correria”. Ruas cheias, gente cheia de pressa — até que algo obriga a um tropeção em que a consciência quase se esvai e, aí, numa síncope induzida por algo que não se vê, cai-se. Tempo para reflexão. “É neste momento que nos encontramos. Queremos regressar ao mundo que tinha imensos problemas, mas refletimos sobre o mesmo e na vida que levávamos e que nos apoquentava”, aponta. Sem saber, Carlos A. Correia lançou um EP para “isto que vivemos”. “Síncope” foi lançado este mês e é, para o seu autor, “uma alegoria”. O disco tem o selo da Discos de Platão, a editora vimaranense pela qual foram lançados, nas últimas semanas, os discos de Dada Garbeck e Unsafe Space Garden, dos quais já falamos aqui.

Ao longo de mais de 20 minutos, o também diretor do projeto Outra Voz explora “três vetores” ou, se quisermos, três fases para a viagem a que se propõe “Síncope”: essa sociedade acelerada (o ser humano como “ser económico”), o desmaio/ queda (onde entra o “ser social”) e, finalmente, a separação entre “o que está no interior e no exterior”, a pele como fronteira (a “carne”). Um exercício apoiado, também, na teoria da sociedade líquida do sociólogo polaco Zygmunt Bauman. Entre a permeabilidade e a fluidez dos dias e das ações, Carlos A. Correia terminou a mistura do disco “em dezembro passado”. “Eu estava em contacto com algumas editoras e tinha vontade de que fosse lançado com algum peso e medida sem o dever da ideia de mercado”, conta, acrescentando: “Então lancei este desafio à Discos de Platão. Basicamente, isto aconteceu há cerca de três semanas. Só fazia sentido lançar agora.”

Para além de um retrato sonoro de uma época que agora nos parece um sonho e da qual só restam fragmentos, “Síncope” parte, também, da “exploração vocal”. “Dedico-me a isso, também no trabalho que desenvolvo no Outra Voz. Ando em torno desta ideia de ultrapassar os limites que a voz humana tem”, explica. E, por isso, o primeiro disco parte, no sentido estético, “do ponto da palavra” — “que não nos é inato, é todo um trabalho que existe de castração da voz humana até falarmos, com códigos de comunicação que são mais corretos e dogmáticos”, repara. “Trabalho sempre em torno da voz e isso tanto me leva à música tradicional como ao formato mais ‘Festival da Canção’ ou ao formato spoken word”, refere.

Para o futuro de “Síncope”, Carlos A. Correia prevê, assim que possível, algo mais: “A componente sonora desta ideia que tem por trás uma grande vontade em tornar-se numa performance teatral, que misture concerto e teatro, mas que será encenada.” Até lá, reflitamos.

E desmontar tudo isso é o propósito, mas “lentamente”: explorar “a voz como som, como coisa cantada ou coisa ruidosa”. Como um instrumento sem limites e que se cola à existência através de algo tão importante quanto “esse universo da cultura oral” — do “falar do alto da montanha” às cantigas “para aligeirar a dureza do trabalho pesado”. A memória que se constrói através da oralidade mora, claro, neste disco: “O álbum fala muito do que a sociedade era.”

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