“Tentaram matar o fado, apagar a memória daquilo que ela tinha sido, a Amália foi à luta”

Miguel Carvalho o autor de Amália – Ditadura e Revolução. A história secreta”, da Dom Quixote, volta a um tema do século XX português, desta vez em registo biográfico. O livro não foi feito para o centenário do nascimento da fadista, mas assentou perfeitamente na data. A investigação do jornalista de “Quando Portugal Ardeu”, “A Última Criada de Salazar” ou “Álvaro Cunhal – íntimo e pessoal”, revela-nos a imagem de uma artista bem diferente do rótulo que lhe colaram nos dias quentes do PREC. Uma mulher que discretamente ajudou a resistência, mas que resistiu sempre a usar esses créditos, mesmo quando era atacada por todos os lados. [Rui Dias com Esser Jorge]

Foto: Rui Dias

Como é que nasceu esta investigação sobre a Amália Rodrigues?

Eu tinha um sonho, desde há muitos anos, uma fisgada que me deu, desde que o Saramago fez aquelas declarações em Paris, a dizer que houve contatos dela com a resistência antifascista, nomeadamente com o PCP e que inclusivamente houve financiamento. Logo aí, comecei a colecionar papelada. A primeira vez que penso nisto, a sério, aí por 2012/13, já tinha várias pastas de recolhas. Foi aí a primeira vez que pensei: ‘isto pode dar alguma coisa’. Há dois anos surgiu a bolsa de investigação jornalística da Gulbenkian. Não tinha ideia que pudesse dar um livro, mas tinha ideia de que podia ser o ponto de partida para muita coisa.

É uma biografia algo que em Portugal não têm assim tanta tradição. Não te sentiste a mexer num terreno pouco pisado?

Sim isso é verdade, partilho muito isso até em relação à Amália, acho criminoso, a figura que ela é e a dimensão mundial que ela teve, como é que passam tantos anos sem haver uma obra? Uma figura como ela teria 20 ou 30 biografias se tivesse nascido nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Todas as pessoas que tiveram contacto direto ou indireto com a Amália formaram a sua própria moldura da figura.

Encontras, portanto, as pessoas já com uma malha mental construída digamos assim?

Não foi a maioria, mas algumas pessoas têm alguma dificuldade em sair dessa moldura, mesmo quando chegas com documentos, com gravações inéditas da Amália, ou entrevistas que as pessoas nunca leram.

A Amália é aqui o centro?

É, embora um dos objetivos foi também tentar contar um pouco a história do século XX português, através do seu percurso. Nós temos muito tendência para pormos as coisas sempre a preto e branco e com a Amália ainda mais. A verdade é que se fores ver tudo aquilo que se disse e foi escrito sobre a Amália ela continuou todos estes anos a ser analisada a preto e branco. Há uma frase dela, já em fim de vida, em que ela diz: “Eu era a noite e o Zeca Afonso o dia”. Ela sentia isto poucos anos antes de morrer. Eu senti que esta história estava por fazer.

“Ela foi alvo de insultos, de perseguições e boatos, a seguir ao 25 de abril”

Sentes que aquilo que tu descobriste põe em causa aquela realidade contada do PREC?

O que é importante para mim é esta figura, está retratada em todas as suas dimensões. Ela foi alvo de insultos, de perseguições e boatos, a seguir ao 25 de abril. O que eu tentei demonstrar é que ela não pode ser catalogada, não cabe em gavetas. O que faz dela uma figura tão humana como nós! Tentei mostrar que há outras narrativas se formos procurar os documentos.

Há duas dimensões nela que são muito importantes: em ditadura os atos clandestinos da Amália com o universo da resistência antifascista são muito vastos, são financeiramente muito significativos e são muito prolongados no tempo. Pós-25 de abril tens uma pessoa que tinha sido idolatrada durante décadas e promovida pelo regime, que sofre os maiores ataques que uma diva como ela pode sofrer. Contudo ela nunca cede á tentação de dizer, “alto olhem que eu fiz isto olhem que eu dei”. Viveu sempre com a mágoa desse tempo e morreu com essa mágoa.

“…a adesão do regime ao fado é muito tardia”

A questão é, no dia 26 de abril havia muitos antifascistas em Portugal, mas o regime durou 40 anos com uma oposição relativamente benévola. Tal como a Amália, o Eusébio também andava a tratar da vida no anterior regime, ao mesmo tempo a mulher mandava dinheiro para África, para a FRELIMO. Achas que se pode fazer um paralelismo entre as duas figuras?

Em termos daquilo que eles significaram naquele contexto, acho que sim. São figuras que foram promovidas pelo regime, com uma diferença, é que a adesão do regime ao fado é muito tardia. À esquerda há quem pense que o fado sempre foi coisa de ditaduras, mas isso é um erro.

 Vemos uma série de indivíduos que frequentam a casa da Amália e que pensamos que são amigos da dela e que durante o PREC a abandonam.

Tens muita gente a tratar da vidinha, parecia que já toda a gente era antifascista desde pequenino. O Luís Cília, quando chega a Portugal, na primeira entrevista que dá diz: “Mas está tudo a atacar o fado! Está tudo louco?”. Ele vai buscar essa história de que ninguém falava. O resto é rebanho: “O vento está a soprar para ali? Então é para ali que vamos”. O que aconteceu foi a pequena inveja, o gajo que quer passar à frente. Vou dar o exemplo do Ary (José Carlos Ary dos Santos): a Amália ficou muito desgostosa com ele. A verdade é que o Ary não esteve tão presente como estava antes, como é óbvio, mas a Amália é um pouco injusta com ele porque em várias aparições públicas e em várias entrevistas, logo naquele período, quando a Amália é mais atacada, ele sai em defesa dela. Já não aparece é tanto lá em casa, e a Amália adorava esses mimos.

Os símbolos da portugalidade foram apagados, no pós-25 de abril, e a Amália era um desses símbolos. Há necessidade de apagar a Amália?

A questão da portugalidade é muito interessante.  Fizeram-lhe a pergunta: “Mas quem é você para cantar Camões?”. Ao que ela respondeu: “Eu não tenho nada á ver com a carga nacional, a portugalidade é uma carga muito pesada para mim, eu sou a Amália ponto”, portanto, ela sempre rejeitou a ideia que vai defender Portugal lá fora.

Foto: Rui Dias

Na entrevista até agora passa a ideia de que ela foi vivendo com alguma manha enganando o regime. Mas há um episódio na embaixada em Espanha em que há um letra profundamente machista que lhe pedem para ela cantar e ela diz ,“Só canto se…”

Além desse, há vários exemplos, não só em relação às músicas como também no cinema. Vários relatos das tentativas de resistir a diálogos que subalternizam o papel da mulher. Em 1943, pedem-lhe para cantar o fado da Maria Alice, que é um fado que fala numa das estrofes do papel da mulher como zeladora da honra do marido e a Amália, “Eu não canto isto”. Acabou por cantar, mas tiveram de modificar a letra. 

“Era alguém [Amália]que aparecia no relatório da PIDE como sendo uma perigosa comunista”

Amália olhar para Salazar, enquanto ele é vivo, como para uma figura paterna?

A Amália convive muito bem com a ideia de alguém que vele pelo nosso destino, uma figura paternal, alguém que tomasse conta de nós. Mas Amália não era só isto! Era alguém que aparecia no relatório da PIDE como sendo uma perigosa comunista. A PIDE não estava totalmente louca. Ela percebe rapidamente como se têm de movimentar nestes meios como é que a mão esquerda faz uma coisa e a mão direita faz outra.

Como foi o crescimento dela porque a menina dos bairros pobres e a mulher madura depois, não são a mesma pessoa? Como é que ela se fez mulher?

Há um episódio que relato no livro, quando lhe fazem a última grande homenagem no âmbito da EXPO 98, acaba tudo em casa dela. Na sala está sentada gente que fala inglês, italiano, espanhol e ela está no sofá e responde em português, responde em espanhol, em italiano. Isto passa-se a um ano antes de morrer. Há quem diga que o Ricardo Espírito Santo a educou, algo disto deve ser verdade, porque ele acompanhou-a durante muitos anos. Ela torna-se uma mulher além do seu tempo pela forma de ser.

Os anos 80 trazem aqui uma série de cantores há novas fadistas. Existe um resgate da imagem da Amália?

Ela foi a primeira a ir á luta aceitava tudo para o que era convidada houve uma altura que dava, em média, 26 concertos por mês. Nessa altura aparece o Miguel Esteves Cardoso a escrever sobre a Amália, uma coisa absolutamente revolucionária, é a primeira pessoa a normalizar a Amália perante o regime democrático.

O Estado Novo é o teu filão?

Não é tanto por aí. Há temas que me interessam por eu achar que estão mancos. Jornalisticamente o que me interessa, sobretudo, é saber que há um puzzle que não está completo. Se eu puder, com as armas que o jornalismo me dá, preencher um bocadinho essas lacunas a minha, missão está cumprida.

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