Uma Crise. Uma oportunidade.

Por César Teixeira.

O vírus. De cuja memória inevitavelmente perdurará para além do nosso tempo. A este propósito, o israelista Noah Harari, num dos seus livros, tece considerações otimistas sobre a forma como a peste, a fome e a guerra estariam relativamente controladas. Aquando dessa leitura, fazia o confronto com o que me contava a minha avó sobre a vivência em plena “gripe espanhola”.

Mas, afinal, continuamos vulneráveis. Pese embora todos os avanços, a ciência tem limites. E esses limites estão a ser poderosamente testados. Muita tinta correrá. As crises abrem oportunidades. Talvez por defeito profissional, procuro nestes momentos, concentrar-me em refletir sobre novos caminhos. Aproveito, pois, para deixar algumas reflexões sobre possíveis oportunidades que vislumbro esta crise possa abrir.

No mercado de trabalho. Com o surgimento em força do teletrabalho. Falo por experiência própria. Com o auxílio das novas tecnologias estamos em casa, como no escritório. Poderemos rentabilizar melhor o tempo. Poderemos reduzir deslocações inúteis. Poderemos ter mais tempo para cultivar a defesa dessa instituição fundamental: a família. É essencial que as empresas considerem cada vez mais este instrumento.

Em termos ambientais. O teletrabalho poderá contribuir para a redução da poluição atmosférica. Menos carros na estrada, nomeadamente nas grandes cidades. Menos macrocefalia urbana. Poderá ser evitável que estejamos nas grandes metrópoles em permanência. Melhores transportes públicos, por menos sobrecarregados. Melhor economia, por mais fluidez no trânsito. Este é o momento de normalizar esta forma de atividade profissional.

O mundo não pode ficar refém da Ásia e da sua produção. Assistimos à nossa insuficiência produtiva. Estamos reféns da China. De tal forma que a China começou por exportar o vírus, e acaba gentilmente a exportar ventiladores e outros materiais que servem para o combate aos efeitos do vírus que exportou. A China colocou fim ao seu milenar isolamento. Com uma visão que rasga horizontes.

União Europeia continua a fraquejar. O projeto europeu é uma necessidade. A União Europeia poderia ter-se afirmado politicamente dada a dimensão internacional do fenómeno. A fragilidade das lideranças em frança e na Alemanha e do facto de a Presidente da Comissão ser Alemã favorecia. Mas não. Tardou a definir uma posição.

O serviço e a propriedade. Muito se falou sobre o heroísmo dos profissionais de saúde. E bem. Mas muito se começa a evidenciar também o papel de outras atividades no assegurar da manutenção da vida em sociedade tal qual a conhecemos. Tanto a grande superfície comercial, como o minimercado de bairro fazem serviço publico. O que conta não é o proprietário do serviço, mas a qualidade do serviço. Não interessa se o mesmo é público ou privado. Sem estas grandes ou pequenas empresas não sobreviveríamos. Pese embora os tradicionais dentes arreganhados de Catarina Martins sempre que fala da economia privada, aquilo que hoje se verifica é que todos nós temos de esboçar um sorriso de agradecimento a quem presta um serviço publico indispensável e essencial.

O eclipse do liberalismo e da apologia da liberdade individual extrema. O ser Humano é um ser social. Deveremos ter instituições fortes para preservar a nossa vida em sociedade. Entre Hobbes e Rosseau o facto indesmentível é que, neste momento, a nossa sobrevivência depende não só da forma como eu intervenho, mas também da forma como o outro se relaciona com a sociedade.

O Homem e a ciência têm limites. E este evidenciar da nossa fragilidade, é similar à fragilidade que sentiam aqueles antepassados que assinalavam as suas incertezas desenhando em cavernas. Ontem como hoje, a natureza tem de ser dominada pelo Homem. A natureza tem em si pequenas coisas – como estes vírus – e grandes coisas – como os objetos espaciais – que nos testam as nossas capacidades.

Permitam-me estas pequenas reflexões. São pontos, entre muitos outros, que motivarão reflexão apurada e profunda. No presente fica o desejo para que consigamos sair desta guerra com o menor número de baixas possível. Que o meu próximo artigo possa ser escrito e lido em outro contexto.

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