Uma nova era

por Rui Armindo Freitas
Economista e Gestor de Empresas

Quando decidi escrever este artigo, tive dúvidas se o seu título seria “uma nova era” ou o “fim de uma era”. De facto qualquer dos títulos serviria para o classificar. Uma nova era, de qualquer forma, não exclui que possa existir esperança no horizonte, numa época em que ela parece estar longe. Obviamente que me refiro a uma tristeza enorme que sinto por tudo o que todos temos visto, e sabemos estar a acontecer mesmo no coração da Europa. Esta guerra que parece já opor dois pólos, o das democracias liberais às autocracias, vai muito para lá da própria Ucrânia. É o fim de uma paz duradoura na Europa, que depois da Guerra nos Balcãs, que também não deve ser esquecida e que marcou um interregno, desde 1945 deixou de existir no nosso imaginário. A paz que experimentámos desde essa altura, alicerçada num projecto europeu, que permitiu um desenvolvimento sem par na história da Europa, uma melhoria generalizada da qualidade de vida no Ocidente, respeito pelas liberdades individuais, democratização do conhecimento, maturidade política e capacidade de estabelecer o projecto europeu como o pináculo do desenvolvimento social, vive hoje o seu maior desafio: evitar a guerra. Nunca deve ser esquecido que o seu principal objectivo foi sempre esse, evitar a guerra, é hora de recordar Schuman. Este projecto foi contagiando países que eram a periferia da sua génese, mas que foram paulatinamente absorvidos, não para provocar outros, mas para também eles passarem a usufruir de um desenvolvimento que até aí desconheciam. Hoje a realidade, alterou-se de forma brusca, mas apenas porque ignoramos os sinais que desde há 20 anos vinham do leste. Nunca esqueci a forma como Vladimir Putin lidou com a crise de reféns no teatro Dubrovka, foi um sinal claro de como para si os fins justificam todos os meios, mesmo que isso custe a vida de civis. Isso antecipou a forma como tomou Grozny, ou como agiu na Síria. A forma como à vista de todos mandou assassinar cidadãos russos em países terceiros, como espezinhou um oligarca que o desafiou, ou como tentou aniquilar Navalny. A anexação da Crimeia que pode ser vista como resposta ao Euromaidan e à deposição do pró-russo Yanukovych serviu para testar o Ocidente. Tudo isto fê-lo em nome de um revisionismo histórico que pretende restaurar o espaço de influência da ex- URSS. A história ensina-nos que o expansionismo que não enfrenta obstáculo é uma droga demasiado viciante para um autocrata, temo que seja tarde, para um homem como Putin recuar. Por isso entramos já no fim desta paz. As sanções económicas violentas, que foram aprovadas na semana passada, são as bombas que a velha Europa tem para lançar. O seu efeito causará também sofrimento ao povo russo, não tão vívido e tão violento como o infligido por Putin ao povo ucraniano, nem isso seria aceitável, mas deve ser encarado como o fim da paz. Isolar um país, significa isso mesmo, que não é possível ter relações com ele, e nem o interesse económico, que muitas vezes leva alguns a pensar duas vezes, aqui está em cima da mesa…porque hoje luta-se, não pela economia, mas pela nossa civilização. Por isso estamos claramente a identificar um inimigo. Ou seja a antecâmara da guerra com armas.

Aconteça o que acontecer, terminou uma longa era de paz no Ocidente, aconteça o que acontecer, o mundo ocidental dificilmente voltará a ser o mesmo.

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