VERGONHA EU SINTO

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

“É mais fácil induzir, atribuir uma culpa e o respetivo castigo do que realmente alguém sentir vergonha.”

William Shakespeare (século XVI) afirmava que a questão era “To be or not to be, that is the question” i.e., ser ou não ser. Hoje os tempos mudaram (e muito!) e a famosa questão coloca-se mais em termos de “pertencer ou não pertencer”, mas vamos por partes.

Pertencer apresenta-se como um algo ser propriedade de alguém ou ser devida a alguém (alguma coisa); Formar ou fazer parte; Ser parte integral de; Ser da atribuição ou competência de; Ter relação; Dizer respeito.

Matematicamente o símbolo pertence (∈ e o seu oposto não pertence ∉) interpreta-se respetivamente como a ∈ S, significa: ad é um elemento do conjunto S e que a ∉ S, significa: a não é um elemento de S.

Na essência, exprime a noção de pertença a conjunto; ser um membro de; existe em.

Esta noção de pertença a grupo é hoje uma necessidade imperiosa e elementar. Todos nós pertencemos a grupos sejam eles de desportos (clubes), políticos, artísticos, colecionadores, modas ou até mesmo grupos no Facebook. Aparentemente a nossa vida só faz sentido se pertencermos a algo ou a todos os algos que particularmente estão no Olimpo de cada tempo. Ou estamos in (on) ou estamos out (off) não há meio-termo nesta sociedade.

Perdeu-se pelo caminho a noção de existência (de ser), o Ser que surge na tradição grega como um conceito fundamental em Parmênides (século V a.c) e em Platão (século V a.c). A palavra SER que assume quatro significados diferentes e essências: Existência, Identidade, Predicação e pelo seu domínio Veritativo. O Ser que se assume não só como o existir mas como tudo o que é, um Ser com propriedades que são verdadeiras por estarem comprovadas. Mas como vimos o ser não é exatamente a mesma coisa que o pertencer.

Pois VERGONHA eu sinto, Mestre Yoda (personagem da saga Guerra das estrelas) não teria dito melhor e quem não tem vergonha não tem consciência afirmava Thomas Fuller (século XVII). A Vergonha como um estado psicológico e uma forma de controlo (religioso, político, judicial e social) constituindo um conjunto de ideias, estados (emocionais e fisiológicos) e de comportamentos, induzidos pelo conhecimento ou consciência de desonra, insucesso ou pena. Desde Freud (século XX), que a culpa tem mais popularidade e interesse do que a vergonha. A tal culpa que traduz à responsabilidade atribuída a alguém por um ato que provocou um prejuízo (seja ele material, moral ou espiritual) a si ou a outro. A culpa que surge como um sentimento e uma qualidade que é aplicada por outros em função de determinados atos que foram avaliados negativamente.

Sim de facto, é mais fácil induzir, atribuir uma culpa e o respetivo castigo (sentença, lição) do que realmente alguém sentir vergonha. Até porque a culpa e a eventual lição que se aplica a alguém, são um custo/preço limitado no tempo e na quantidade. É algo de transitório e efêmero, que passa, que se esquece. A vergonha que John Bradshaw descreve como a “emoção que nos deixa saber que somos finitos”, a consciência de que existimos, essa é um sentimento doloroso sobre alguém enquanto pessoa e por isso é dura, crua e (claro) impopular.

Hoje é para nós mais simples, óbvio e até natural culpar os outros que nos enganam, que nos roubam, que nos encaminham para utopias, que nos levam ao erro, do que sentir vergonha. Por isso tantos de nós pertencem ao grupo dos que se abstém de participar, de tomar partido, de decidir, de votar, de agir, de exigir… culpar os outros é sempre um caminho mais cómodo do que assumir as nossas responsabilidades, até porque a culpa, essa morre (sempre) solteira!

Um pouco mais de vergonha não nos faria mal e de efetividade (porque não?) na atribuição da culpa, porque perder a vergonha é perder a essência da existência do Ser e Pertencer ao grupo dos que culpam mas nada fazem para mudar i.e., não são.

 

NOTA: A escrita deste texto foi fortemente influenciada por uma recente viagem a Ásia onde existe e se promove a cultura da vergonha.

 

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