O CICLO DA VIDA

por MARCELA MAIA
Técnica de relações internacionais na Universidade do Minho

São 17:45 do dia 28 de janeiro e acabo de nascer.

Choro e começo a escrever as primeiras páginas da minha história, em branco até então. O ciclo da minha vida inicia-se.

Começo a sentir, a criar afetos e a estabelecer relações – estou viva e vou vivendo enquanto há vida.

E o que é a vida?

Não sendo fácil de definir, podemos afirmar que a vida é o que acontece desde que nascemos até morrermos.

Durante o viver há o crescer, o crescer ensina-nos a sobreviver e o sobreviver vai enganando o morrer.

O ciclo da vida dá e tira.

Hoje não escrevo com floreados nem sobre o bem que existe na nossa terra e em cada um de nós.

Hoje a escrita não me sai dessa forma.

Janeiro é para mim um mês de sentimentos antagónicos, tendo-se tornado o cenário da dicotomia “nascer/morrer”. Em janeiro nasce o ano, nasci eu e nasceu a minha irmã, mas também morreu o meu avô…

A morte, condição que nos pauta a vida, é um fado inevitável e a vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão; é preciso a gente olhá-la de frente com coragem e pensar, mas sem desfalecimentos, que a nossa hora há-de vir, que a gente há-de ter um dia em que há-de poder dormir, e não ouvir, não ver, não compreender nada. (Florbela Espanca)

Quem nunca ouviu alguém desejar a outra pessoa ou a pedir como presente “muita saudinha”? Numa primeira fase não percebemos sequer o que estão a pedir, afinal nunca vimos aquilo à venda num supermercado – apesar de que se fosse colocado à venda seria certamente um best seller – depois achamos que não faz sentido pedirem uma coisa que não se pode comprar e que mais vale ocuparem o seu pedido com alguma coisa mais interessante e útil, mas à medida que o tempo passa só desejamos ser capazes de presentear os nossos entes queridos com a dita “saudinha”.

Ver alguém próximo de nós envelhecer tem tanto de poético como de assustador. A ideia de que o final da sua vida possa estar próximo é desoladora e do auge do nosso egoísmo queremos que os “nossos” fiquem connosco para sempre, enquanto nós por cá também andarmos.

Os “nossos” não são só eles próprios, são, como a própria palavra indica, parte de “nós”. A nossa identidade multiplicada –  a vida, que parece uma linha recta, não o é. Construímos a nossa vida só nuns cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros. Mas essa pequena percentagem, esses cinco por cento, é o resultado da sinceridade consigo mesmo. (José Saramago)

Mas no processo da partida o que mais me entristece é o silêncio. O silêncio que resulta da falta do outro e o silêncio que resulta das nossas ações – as palavras que não fomos capazes de dizer em vida aos que partiram.

Assim, que não se tome como certa a permanência das pessoas na nossa vida e que na falta de podermos oferecer saudinha aos que crescem e envelhecem junto a nós, ganhemos um minuto do nosso dia a dizer-lhes que eles importam e que a sua existência completa a nossa.

 

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