Letícia Castro Rocha: “Guimarães é uma terra onde os jovens conseguem construir o seu futuro?”
Terminar uma licenciatura é fechar uma etapa importante da nossa vida. Mas é também o momento em que começam algumas das perguntas mais difíceis: onde vou trabalhar? Conseguirei construir uma carreira? Terei condições para ter a minha própria casa? Poderei fazer a minha vida na terra onde cresci ou terei de procurar noutro lugar as oportunidades que aqui não encontro? São perguntas que hoje fazem parte da realidade de milhares de jovens.

@ Letícia Castro Rocha
Terminei recentemente a licenciatura em Direito e preparo-me agora para iniciar uma nova etapa profissional. Faço-o com entusiasmo, ambição e com a consciência de que uma formação académica, sendo fundamental, já não representa, por si só, uma garantia de estabilidade ou de futuro. Paralelamente, enquanto Presidente da Assembleia de Freguesia de Ponte, tenho tido a oportunidade de acompanhar mais de perto a vida da nossa comunidade, as preocupações das pessoas e a importância que as decisões públicas têm no quotidiano de cada um.
Essa experiência reforçou em mim uma convicção: os jovens não podem limitar-se a observar o futuro. Devem ajudar a construí-lo. E é precisamente por isso que acredito que Guimarães deve colocar a si própria uma pergunta essencial: estamos verdadeiramente a criar condições para que os nossos jovens possam ficar?
Guimarães tem escolas, universidades, empresas, instituições, associações e uma enorme capacidade para formar talento. Tem uma identidade fortíssima, qualidade de vida, cultura, dinamismo económico e uma dimensão que nos permite ser ambiciosos. Mas não basta formar jovens. É preciso criar condições para que possam ficar. Isso significa falar de emprego qualificado e de salários compatíveis com a formação adquirida. Significa criar pontes entre instituições de ensino, empresas e jovens profissionais. Significa apoiar quem quer empreender, inovar, criar o seu próprio projeto ou simplesmente encontrar no seu concelho uma oportunidade profissional à altura das suas qualificações.
Significa também enfrentar um dos maiores obstáculos à autonomia da minha geração: a habitação. Hoje, muitos jovens trabalham, têm formação e procuram construir a sua independência, mas encontram preços de habitação que não acompanham os rendimentos disponíveis.
Quando ter emprego já não é suficiente para conseguir sair de casa dos pais, arrendar uma habitação ou começar a pensar numa família, temos um problema que deixa de ser individual e passa a ser de toda a sociedade. Precisamos de políticas de habitação que olhem também para os jovens e para a classe média. Precisamos de aumentar a oferta, recuperar imóveis, estimular o arrendamento e encontrar soluções que permitam a quem inicia a sua vida profissional permanecer no território onde gostaria de construir o seu projeto de vida.
Mas fixar jovens não depende apenas de emprego ou habitação. Depende da mobilidade. Da cultura. Do desporto. Da qualidade do espaço público. Da capacidade de criar oportunidades. E depende, também, da possibilidade de participar nas decisões que moldam o nosso futuro.
A experiência autárquica tem-me mostrado algo muito simples: a política local está muito mais próxima da vida das pessoas do que muitas vezes imaginamos. Uma estrada, um transporte, um equipamento, uma política de habitação, um espaço para uma associação ou uma decisão sobre o desenvolvimento de uma freguesia podem ter um impacto direto na vida de centenas ou milhares de pessoas.
Por isso, os jovens devem estar presentes. Não apenas quando se discutem políticas de juventude, mas quando se decide sobre economia, ambiente, mobilidade, habitação, cultura ou desenvolvimento do território. Um concelho verdadeiramente amigo dos jovens não é apenas aquele que organiza iniciativas destinadas à juventude. É aquele que lhes permite estudar, trabalhar, participar, viver e construir um projeto de vida.
Também não acredito numa sociedade que coloque gerações umas contra as outras.
Guimarães será sempre mais forte se conseguir juntar a experiência de quem ajudou a construir aquilo que hoje somos à energia, às qualificações e às novas ideias daqueles que agora começam o seu percurso. Precisamos dessa ligação entre gerações. A minha geração não pede que lhe ofereçam um caminho sem dificuldades. Pede que o esforço continue a valer a pena.
Que estudar valha a pena. Que trabalhar valha a pena. Que participar valha a pena. E, sobretudo, que seja possível olhar para Guimarães e dizer: é aqui que quero construir o meu futuro. Eu quero acreditar que sim. E quero que cada vez mais jovens possam acreditar no mesmo.
Porque o verdadeiro sucesso de uma terra não se mede apenas pela capacidade de formar jovens preparados para o mundo.
Mede-se também pela capacidade de fazer com que, podendo escolher qualquer lugar, continuem a escolher Guimarães.
Artigo de Opinião de Letícia Castro Rocha
Presidente da Assembleia de Freguesia de Ponte





