A CRÓNICA DE UM BOM MALANDRO

Por José Rocha e Costa,

Gestor de empresas

O passado fim-de-semana foi particularmente interessante no que toca a entrevistas que passaram na televisão. Entre elas destaco a entrevista ao representante português no Festival da Eurovisão e a audição parlamentar ao comendador Joe Berardo. Ambas têm pontos em comum, mas também diferenças significativas.

Como semelhanças temos o facto de tanto Joe Berardo como Conan Osíris não falarem um português muito perceptível, recorrendo muitas vezes a palavras de origem inglesa, um por necessidade e o outro porque é tipo bué de cool, tão a ver? Têm também em comum a capacidade de nos fazer questionar o nosso próprio bom senso como sociedade que deixa estas personagens chegarem tão longe nas suas áreas de actuação.

Mas se Conan Osíris é, muito provavelmente, um fenómeno passageiro tipo Zé Cabra, mas um Zé Cabra tipo bué de à frente que usa colheres nas bochechas e mistura letras absurdas com os cantares ciganos, Joe Berardo representa algo já muitas vezes visto no nosso país: o típico “artista” à portuguesa, que todos criticamos veementemente, mas no fundo admiramos a desfaçatez com que este consegue “aldrabar” toda a gente às claras e ainda receber comendas no processo.

Se olharmos para o passado, não faltam exemplos. Senão vejamos: quem não se riu, ou pelo menos ficou ligeiramente bem-disposto, há uns anos atrás, quando as televisões nos mostraram Vale e Azevedo em Londres, supostamente falido, a viver num condomínio de luxo e sem pagar renda?

Há também o exemplo de José Sócrates, que toda a gente sabe ter usado a sua posição como primeiro-ministro para interceder em favor de terceiros e que por isso recebeu vários milhões de euros, milhões esses que não são seus. São de um amigo. Amigo esse que lhe faz empréstimos sem fim e que lhe compra casas por valores dez vezes superiores ao valor real.

A trapalhada à volta da colecção Berardo é parecida. O Estado não consegue penhorar a colecção porque ela não pertence a Joe Berardo, pertence isso sim à Associação Colecção Berardo. O Presidente da Associação Colecção Berardo é, como o nome pode deixar antever, Joe Berardo. Mas e se o Estado tentar arranjar uma forma de destituir o Conselho de Administração da Associação Colecção Joe Berardo, uma vez que se encontra na posse de uma quantidade razoável de títulos desta associação, recebidos como colateral do incumprimento do empréstimo da Caixa Geral de Depósitos? Não adianta muito, porque pelos estatutos desta associação, o Conselho de Administração tem que ser escolhido pelo próprio Joe Berardo.

Isto parece tudo muito confuso porque foi concebido para ser assim mesmo: confuso. Mas onde quero chegar, no fundo, é a esta admiração que o povo português tem por um “bom malandro”. Sabemos que é errado, e que as acções destes malandros nos prejudicam a todos, mas não conseguimos deixar de admirar uma aldrabice quando ela é bem feita.

Seria nisso que Mário Zambujal estaria a pensar quando escreveu “A Crónica dos Bons Malandros”? Talvez fosse, talvez não, mas uma coisa é certa: no caso de Joe Berardo não haveria necessidade de planear um assalto ao museu, porque a colecção de arte, apesar de não ser sua, é da Associação da qual ele é o Presidente, e mesmo que deixe de ser o Presidente, … Bem, acho que vocês já perceberam a ideia.

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