A (DES)CONFIANÇA NO VAR!

Por Vasco André Rodrigues,
advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Antes de qualquer consideração, gostaria de agradecer o simpático convite endereçado pelo Eliseu Sampaio, director do Mais Guimarães, para ocupar este espaço de opinião, na presente semana.

Uma das maiores inovações do futebol nos últimos tempos foi o sistema de vídeo árbitro.

Uma inovação que, inicialmente foi olhada de soslaio por representantes do futebol (na altura Blatter e Platini), mas que acabaria, aos poucos, por ser aplicada nos principais campeonatos, ainda que alguns aderissem a ele com maior parcimónia. Tal aconteceu em Inglaterra, cujos responsáveis tiveram como pretensão que o mesmo quando entrasse em vigor, apresentasse um grau de exactidão, probidade e correcção acima de quaisquer suspeitas.

Porém, nem no país da fantástica Premier League tal está a suceder! Na verdade, bastará acompanhar os jogos de um dos melhores campeonatos do mundo para perceber que, não obstante um ano de testes, o sistema não está afinado, gera dúvidas, cria engulhos e, acima de tudo, causa desconfiança. Tanta, que como alguém referiu, hoje em dia festeja-se um golo por duas vezes: “quando é marcado e quando o VAR dá luz verde para o mesmo subir ao marcador.”

Aliás, tanto é assim, que o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, alarmado pelo chorrilho de críticas desencadeadas pela aplicação do modelo de análise das decisões arbitrais, tentou avançar com a proposta de uma medida quase peregrina, se nos é permitida a expressão. Deste modo, para o esloveno que comanda os destinos do futebol europeu deveria passar a existir, nos lances de fora de jogo, uma tolerância entre 10 e 20 centímetros, de modo a impedir decisões arrancadas a ferros, ou que “jogadores com narizes compridos estejam sempre em fora de jogo”, como referiu o próprio Ceferin.

Todavia, tal até ao momento, não ocorreu, continuando o sistema electrónico a perscrutar as decisões ao milímetro.

Aliás, fruto dessa minúcia, a Liga Dinamarquesa, que deverá adoptar o sistema na próxima temporada, estará a pensar implementar uma medida, no mínimo, inovadora. Assim, os responsáveis máximos do campeonato estarão a ponderar estabelecer um tempo limite de 25 segundos para análise dos lances de fora de jogo pelo vídeo-árbitro. Se após esse período não existir qualquer conclusão, a decisão original do juiz de campo deverá ser mantida, em virtude da mesma não poder ser considerada uma falha manifesta. Algo que, por exemplo, impediria o surrealismo vivido no último desafio do Vitória frente ao Rio Ave, em que a contenda esteve interrompida por longuíssimos oito minutos. Nestes, só depois de terem decorrido, sensivelmente, sete minutos e 30 segundos, o juiz, por incapacidade de decisão do VAR, recorreu aos monitores e revogou a decisão anteriormente tomada… em 30 segundos! Algo que os dinamarqueses querem evitar como forma de protecção dos árbitros, para o jogo não ter demasiados tempos mortos e para estabelecerem alguma confiança aos espectadores do factos que irão entretecer a trama do jogo.

Porém, este não será o único problema do VAR.

Voltemos a falar do Vitória! A famigerada Taça da Liga! O golo anulado a João Pedro. A falta sobre Florent no segundo tento portista. O fora de jogo posicional que tolda a visão a Douglas no remate de Alex Telles. Não queremos analisar os lances. Porém, levantemos uma questão que quem manda no futebol parece não querer resolver. Esta passa pela forte componente subjectiva do sistema. Na verdade, que critérios presidem ao recurso à tecnologia?

Bastará dar um exemplo. Quatro dias antes, um golo do SC Braga com um jogador em fora de jogo posicional, frente ao mesmo FC Porto, mereceu aturada análise. Uma paragem de quatro minutos, para perscrutar se um jogador arsenalista havia tirado a visão ao guarda redes azul e branco. Porém, em Braga, naquele momento, ninguém cuidou de recorrer aos meios tecnológicos para perceber se a intervenção de Soares houvera sido lesiva à possibilidade de outra reacção de Douglas.

Outra situação. O golo de João Pedro, por suposto pontapé na mão a Diogo Costa. O empate foi, imediatamente, validado. Há imagens em que o árbitro, Jorge Sousa, diz aos jogadores azuis e brancos que o golo é válido. O VAR não conseguiu rebater a validade do golo, suscitando a visão do árbitro. Árbitro esse que depois anulou o golo. Onde esteve a fronteira de um golo lícito e da ilicitude do momento? Temos um árbitro que num primeiro momento valida o golo e refuta um protesto, ainda que ténue de um jogador, um VAR que não consegue aferir da invalidade do movimento (ainda que fique com dúvidas) e um árbitro que rebate essas dúvidas e a convicção inicial, decidindo de modo diverso ao que houvera feito.

São estas situações que a bem da indústria futebol terão de ser resolvidas. Na verdade, a confiança será a base de qualquer sistema ou de qualquer modelo de actividade. Ora, se estamos a seguir um modelo baseado na subjectividade dos olhos e das convicções dos decisores, para que servirá o sistema. Para aumentar as dúvidas? Para justificar um regime dúbio e ambíguo?

Porém, verdade seja dita! Pelo menos, no futebol português este problema irá muito mais além do que o modo como os olhos que decidem, analisam ou querem analisar os lances. Mas, isso, seria tema para outra crónica…ou até para um livro, atenta a extensão do problema!

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