A EUROPA, RENASCIDA.

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Era Paulo de Carvalho que afirmava, sob a forma de canção, que “dez anos é muito tempo”. Em política, área da nossa vida coletiva em que o tempo corre mais veloz do que no relógio ou no calendário, dez anos é uma eternidade. E um ano é seguramente muito tempo.

É por isso natural que o exercício (tantas vezes doloroso) de ler aquilo que escrevemos com esse distanciamento nos mostre que os nossos prognósticos saíram furados, algo a fazer lembrar aqueles programas de final de ano que recordam as previsões de videntes e astrólogos e que mostram o expectável: falharam mais do que o que acertaram.

Há mais ou menos um ano escrevi aqui um artigo sombrio acerca do futuro da Europa. Dizia mesmo que o caos inicial do processo de aquisição de vacinas significava o estertor do projeto europeu no coração de muitos dos seus cidadãos. Já tive aqui ocasião de dizer que a análise foi precipitada, pois que tudo acabou por correr bem.

Daí para cá, a Europa voltou a dar sinais de renascimento e vitalidade. Primeiro com a aprovação da tão falada basuca europeia e depois na sua reação à invasão russa da Ucrânia. Esta última foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma prova de fogo à sobrevivência da União. Uma prova que homens como Vladimir Putin contavam que fosse chumbada. Felizmente assim não foi. Não obstante as naturais modulações de discurso que foram surgindo aqui e ali, a resposta foi robusta e consensual.

É claro que ainda há muito por fazer. A dependência em que muitos estados se colocaram das matérias-primas oriundas da Federação Russa limitaram uma reação ainda mais enérgica, algo que outras nações, sem essa grilheta, puderam fazer.

O meu otimismo, todavia é cauteloso e preocupado. Por várias razões. Em primeiro lugar porque se a guerra durar muito tempo, com as consequências óbvias para a economia que ninguém ignora, as nossas democracias vão ser colocadas sobre pressão. A pressão que do lado de lá é silenciada ou esmagada, do lado de cá pode ter efeitos indesejáveis como perpetuar uma pressão populista de que alguns se vão aproveitar.

Por outro lado, o que se passou nas eleições recentes em França, em que pela primeira vez a extrema-direita se aproximou de uma vitória, mostra que a possibilidade de a democracia levar um rombo num dos grandes países da União não é um mero exercício teórico.

Finalmente, há que lembrar que existem já hoje no nosso seio países em que a democracia está doente. E se se tem falado menos na Polónia (porque os polacos, ante a possibilidade de poderem vir a ser a próxima vítima) não hesitaram em colocar-se do lado certo da barricada, atente-se, por oposição, na Hungria, onde bastou Orban ter ganho as eleições para imediatamente ter introduzido as primeiras brechas sérias na unidade das nações da UE.

Os tempos são, por isso, de uma preocupante angústia, mas nem mesmo ela nos deve impedir de dizer que a bárbara agressão russa teve como efeito colateral virtuoso um reganhar da consciência de que é na unidade das democracias europeias que devemos encontrar as respostas para a crise. E que, como diz outra canção, juntos somos efetivamente mais fortes. A União Europeia, que foi um garante de paz durante décadas, tem se ser uma fortaleza inexpugnável na defesa da democracia, dos direitos humanos e do estado social, ele que foi o cimento agregador de todas estas nações.

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