A peste no tempo do Homo Deus

por Vânia Dias da Silva

Jurista e Professora convidada no IPMAIA

Vivemos (espero) a pior crise de uma geração. Seguramente, a mais grave até agora conhecida. E, sim, temos medo. Eu tenho. Medo da peste que fustigou o Homo Sapiens do obscurantismo – e que julgávamos coisa de um passado distante – mas que, afinal, também atinge em cheio o portentoso Homo Deus de Yuval Noah Harari.

A Pandemia de Covid-19 que nos prende em casa, nos faz reféns da solidão e nos afasta da família, dos amigos e do emprego – e em tantos casos do rendimento – não é de todo uma simples gripe. Ainda falta saber muito sobre ela: de onde veio (não no sentido geográfico, entenda-se), como evolui, como se trata e, sobretudo, como é possível, antes de a conseguirmos travar, dar resposta. Mas uma coisa sabemos já – a Covid-19 é grave sob 3 prismas: a nossa saúde, a saúde do sistema nacional do mesmo nome e a saúde da economia.

De facto, já todos percebemos a duras penas que nenhum sistema de saúde do mundo está preparado para ela – não há equipamentos de protecção, não há camas e ventiladores para os que caem doentes, não há profissionais de saúde que cheguem para tratar os enfermos. Mas mais: já todos percebemos também que a taxa de letalidade resulta, em grande medida, da escassez de recursos, impondo-se a escolha hedionda sobre quem salvar. A que acresce a terrível doença da economia, que arrastará todos para uma recessão jamais vista nas últimas décadas e uma crise económico-financeira sem precedentes.

Ora, ante tal cenário de horror, a pergunta que se impõe é: podíamos ter evitado o contágio? A resposta é não. Não podíamos. Não pudemos quando as pessoas quase não se movimentavam; jamais conseguiríamos no mundo global em que vivemos. Mas podíamos ter evitado o tamanho das consequências do que aí vem – em vidas, em dinheiro e em recursos – não fora o facto dos líderes mundiais terem enterrado a cabeça na areia quais avestruzes, não vendo o óbvio. Desde Dezembro que nos chegavam relatos preocupantes da China. Mesmo truncados e com meias verdades, em Janeiro, era já evidente o que cá chegaria, mais cedo do que tarde. Podíamos e devíamos ter acautelado muito antes. Fazer há um mês o que estamos a fazer agora – com medidas progressivas que deviam ter começado no controlo de fronteiras e acabado nas cercas sanitárias e confinamento – teria tido um impacto gigante nos números, evitando a sangria a que estamos a assistir. Se os líderes mundiais deram provas da sua enorme incapacidade, a Europa deixou a nu as suas inquietantes fragilidades, a braços com crises sucessivas e, agora, com um drama que não foi capaz de antecipar e precaver.

Por cá, agimos tarde, mas, ainda assim, mais cedo do que a Itália ou a Espanha. E, para já, os nossos números não são tão assustadores. Não só porque estamos a começar, mas também porque, receio bem, ainda estamos numa fase muito incipiente de testes. Vai piorar, já ninguém dúvida. O que esperamos é que não tanto como nos nossos vizinhos.

No tempo da peste que, afinal, o Homo Deus não venceu, resta-nos a esperança de que o avanço científico e a solidariedade global não falhem. Particularmente com os que todos os dias cuidam não só de que nos mantenhamos com saúde e em segurança, mas também de que nos cheguem os alimentos, os medicamentos ou a gasolina. Uma saudação a esses heróis!

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