CAPITAL DOS CAPITAIS

por RUI ARMINDO FREITAS
Economista

Como vimaranense acérrimo que sou, tenho uma reacção natural de felicidade a tudo que se traduz numa afirmação da minha terra face às demais. É assim comigo, como será também com todos aqueles que partilham desta paixão que nasce connosco ou que se adquire na vivência plena do vimaranensismo. Seja na cidade ou em cada uma das nossas vilas, seja nas freguesias mais centrais, ou numa mais periférica, este sentimento bairrista de orgulho na nossa terra perpassa o nosso concelho. Por isso, todos nós temos sentido um enorme orgulho sempre que Guimarães tem mais uma medalha no seu peito para exibir, foi assim com classificação do centro histórico como Património Mundial, assim como com a Capital Europeia da Cultura de 2012, título que dividimos naquele ano com Maribor.

Desde então têm surgido mais capitais e mais candidaturas. Cumpre dizer que ser capital de algo é ser-se referência no que toca a determinada dimensão, e sempre que o somos, fica claro que há trabalho realizado nesse sentido, com maior ou menor eficácia, maior ou menor qualidade, mas regra geral, durante esse período de festividade, há um efeito positivo imediato que é sentido. Contudo, parece-me, que olhar desta forma para esta questão, faz com que se reduza o âmbito estratégico do que representa o título apenas para o curto prazo, podendo correr-se o risco do efeito se esfumar muito rapidamente. Isto é, ser-se capital de alguma coisa, não se pode resumir ao folclore festivaleiro de celebrações ao ar livre ou num recém inaugurado equipamento, mas tem que se revestir de um carácter estratégico que pretende ter impacto duradouro sobre a comunidade, afim de que, o investimento realizado nesse desígnio possa ser colocado ao serviço do desenvolvimento económico e social da mesma. Para isso, tem de existir um antes, um agora e um depois. Um antes, em que é pensado de acordo com os pontos fortes e fracos de uma comunidade, a aposta a fazer para potenciar a afirmação numa determinada área, um durante em que se abre ao mundo essa afirmação, e um depois de sedimentação enquanto referência, para que perdure e para que não se seja só capital agora, mas nos anos vindouros.

Assim sendo a voragem de capitais, que em todos tem um efeito instantâneo de orgulho, acarreta consigo um risco, o risco de passarmos de capital em capital, sem a preocupação de sedimentar a anterior, mas já a pensar na seguinte, correndo o risco de nada sedimentarmos, e passarmos a ser nada mais do que especialistas em capitais, diria mesmo a capital das capitais. Por isso, não posso deixar de assinalar, que do meu ponto de vista é um erro que se esteja a apagar da orientação estratégica do concelho as apostas sobre as quais nos debruçamos nos últimos dez anos, de fazer do nosso concelho referência de cultura e património. Deitarmos por terra o esforço comunitário de afirmação colectiva, pela lógica propagandística de obter mais uma capital é um erro grave, e é ignorar que para realizar progressos económicos e sociais, que se traduzam numa melhoria efectiva da qualidade de vida da nossa comunidade, não temos de ser capital de todas as dimensões que a deverão compor, mas sim encara-las como decorrentes de uma estratégia não estanque e abrangente.

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