Costa, o “Inventor”

Por César Machado.

“Também sou jurista e sei a capacidade enorme que os juristas têm de inventar problemas”. Voltei a fita atrás. Era mesmo. Repeti. Confirmou-se. António Costa disse mesmo isto aos microfones das televisões. Pois bem, Caro Colega, andou mal, deixe-me dizer-lhe, não disse tudo. E foi um tanto injusto. Na verdade, poderia ter dito que os juristas têm uma capacidade enorme em inventar problemas (no que estaríamos de acordo), acrescentando, no entanto, que revelam igualmente grandes competências para criar soluções, para decidir e agir no imprevisto, sem recurso a tratados anteriores porque não os há, para intervir sensatamente e com medida em momentos de crise aguda e generalizada, nos quais ninguém sabe muito bem o que fazer por falta de referências que permitam adoptar receitas “by the book”, que revelam especial competência para encontrar consensos difíceis em ocasiões que nos colocam todas as interrogações e inseguranças. Caro Colega, como muitos, considero que termos a sorte de ter a Presidente da República e a Primeiro Ministro dois juristas, experientes e astutos, que têm revelado uma enorme capacidade para lidar com esta singular situação de enormíssima complexidade, sentando à mesa representantes de sectores fustigados por uma crise demolidora e sem precedentes, e, o que é notável, conseguindo obter equilíbrios e entendimentos, mesmo quando os interesses são claramente conflituantes, e, não raro, se confirma o dito segundo o qual “em casa onde não há pão, todos ralham e todos têm razão”. Por incompleta, aquela frase inicial é injusta sobretudo para estes dois juristas, o Presidente da República e o Primeiro Ministro. E já agora, se me permite, no caso deste último, mais ainda. É que, com o afã de “inventar” próprio de jurista que é, e por não se demitir do que entende serem as suas responsabilidades, qualidade que também abona os juristas dignos desse nome, o nosso primeiro ministro permitiu-se “inventar” soluções para a política europeia, apontando medidas nunca antes adoptadas, quer pela sua natureza, quer pela sua magnitude, reforçando, sem tibiezas, que nestes momentos é que se vê quem está e quem não está, atirando à cara e batendo o pé, curto e grosso, a altivos representantes de países que na União Europeia costumam falar desse modo, não tanto a ouvir desse modo, porque, ostentando finanças mais robustas se permitem fazê-lo, como quem fala “de cima da mula” para aquela malta lá do sul… Ora, o nosso “jurista” e Primeiro Ministro “inventou largo” nesta sua intervenção. Confesso que, como português, fiquei orgulhoso, com esta sua atitude. E também é verdade que fico igualmente muito confortado quando vejo a admiração com que os chefes políticos estrangeiros se referem às suas intervenções. Essa coisa de dar um murro na mesa quando é necessário também é característica dos juristas, podia tê-lo dito. Ao que vemos por esse mundo fora estamos muito bem servidos. No meio do azar, é opinião corrente que nem tudo corre mal. A começar pelas duas principais figuras do Estado, que se têm revelado à altura do momento, merecendo bem o nosso agradecimento.

Colega António Costa, invente que o seu inventar tem sido muito bom, tal como o do Presidente da República. Que não lhes falte imaginação e inventiva, coragem e sorte.

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