D. INOCÊNCIA

Nome completo: Inocência Machado Fernandes
Nascimento: 28 de maio de 1946 Guimarães, Portugal
Profissão: Funcionária pública (reformada)

Houvesse uma check-list das características de uma avó e a D. Inocência preencheria todas. Carinhosa, a quem não posso deixar de gabar as qualidades culinárias, tem uma dedicação matriarcal aos netos, que por estes dias não são só três – os que na verdade tem – e passam a ser dezenas. É ela própria, D. Inocência, responsável por vestir os anjinhos da procissão da Senhora da Luz, quem o diz: “Neste dia tenho tantos, tantos netos!”. Começam a chegar duas semanas antes do fim de semana das Festas. No Domingo de Ramos, o padre anuncia nas missas que a casa azul da rua dos Cutileiros, vizinha da casa paroquial, já tem as portas abertas para receber os pais e avós que queiram inscrever as crianças para irem na procissão da Senhora da Luz.

Inicia a contagem crescente – às vezes não tão crescente, lamenta a a D. Inocência – e os estrugidos queimados (as pessoas chegam à hora de cozinhar para tirar medidas e, de vez em quando, lá fica o petisco comprometido). Dorme mal ao pensar que nunca mais se chega aos 10 anjinhos e depois aos 20, aos 50, aos 100. Há anos que não se alcança a centena e outros em que se consegue ultrapassar esse número. As promessas por cumprir, a devoção pela Senhora da Luz e o gosto em ver a procissão o mais bonita possível estão na base da motivação dos pais e avós. “Muitas famílias, mesmo que já não estejam a morar em Creixomil, não querem que a festa acabe e mantêm a relação com a sua freguesia. Já tirei medidas a crianças que hoje são adultos e me trazem cá as suas crianças, os seus filhos”, dá conta a D. Inocência.

Envolveu-se nesta missão há 42 anos. Começou porque a mãe, Aninhas Machado, lhe pediu. Foi ajudar a D. Amélia Maia e a mãe. Depois assumiu sozinha o desafio. Agora tem a ajuda das filhas. “Não é uma tradição de família, mas a verdade é que a dedicação à Senhora da Luz e à capela sempre esteve ligada à minha família e o gosto ganha-se e cresce. E é tanto que a tarefa de medir e vestir e organizar foi ficando na família. Mas não significa que passe de geração em geração. O futuro logo se vê. Enquanto tiver forças e puder, faço”, descreve.

A tradição vem do seu pai, fundador da Irmandade da Senhora da Luz. À data da sua morte, a continuidade naquela organização estava reservada apenas aos homens (costume entretanto alterado). É quando o marido de D. Inocência, Manuel Teixeira, assume o lugar do sogro. A devoção da família à Senhora da Luz sempre foi muito grande e forte: “As minhas filhas foram batizadas na Capela da Senhora da Luz no dia 02 de fevereiro porque é Dia da Senhora das Candeias, logo o dia mais simbólico da Senhora da Luz. A minha filha mais velha casou na Capela da Senhora da Luz e os três filhos dela, meus netos, também lá foram batizados”.

Chegado o dia, o frenesim instala-se. No passado dia 03, as crianças – inclusivamente o neto Manuel, que foi vestido de guerreiro, e a Mariana, vestida de anjinho cor-de-rosa – começaram a ser caracterizadas cedo, a partir das 7h00 até às 9h00 e pouco. A procissão haveria de sair do Padrão de S. Lázaro às 10h00. Este ano o domingo da Senhora da Luz calhou chuvoso. Nem por isso a procissão foi adiada. Tal nunca aconteceu, independentemente do tempo. Que nos console a sabedoria popular, que prevê que “se a Senhora da Luz rir, está o Inverno pr’a vir; Se a Senhora da Luz chorar, está o Inverno a acabar”.

Por: Catarina Castro Abreu

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