E AGORA QUE O MUNDO ESTÁ LÍQUIDO?

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

Entender o mundo em que vivemos não é mais uma tarefa fácil nem simples, tudo ficou muito mais complicado. Em outros tempos, o mundo era percecionado como sólido i.e., as ideologias, o pensamento, as conceções e as conexões que plasmavam e regulavam a realidade e as interações entre os elementos que a compunham eram conceitos consistentes, estáveis e sólidos. Isso acabou!

Como afirma Zygmunt Bauman “o século XX, com as suas conquistas tecnológicas, embates políticos e guerras viu o apogeu e o declínio desse mundo sólido”. Esta “pós-modernidade”, como ele também refere, aportou a fluidez do líquido, esbateu barreiras e divisões, adotou novas formas, preenchendo os espaços, dissolvendo certezas e práticas. A liquidez e volatilidade, de Bauman, estão associadas à inconstância e à incerteza que a falta de pontos de referência provoca. Estes princípios, códigos e padrões socialmente estabelecidos que usávamos como barómetros de orientação, pelos quais nos podíamos guiar, estão a desaparecer. O mundo de facto mudou!

A verdade e a mentira estão completamente diluídas, sendo muito difícil de as distinguir ou reconhecer. Tudo vale. Qualquer coisa serve. Uma coisa e o seu contrário são aceitáveis. As ideologias e as ideias não são mais importantes mas sim os fait-divers, as intrigas, as ofensas. O espetáculo sobrepõe-se ao evento em si, ao facto. Teremos atingido o auge da civilização do espetáculo, como descrevia Mario Vargas Llosa. Os recentes acontecimentos relacionados com as eleições americanas são um bom exemplo desta nova realidade.

Os meios de comunicação tiveram aqui um papel central e cometeram um pecado mortal ao credibilizarem esta forma de atuação e ao subestimarem os seus intervenientes. A incapacidade de colocar os assuntos e os problemas que realmente interessavam aos cidadãos na ordem do dia foi gritante.

O consenso à volta do denominado “politicamente correto” e uma incompreensível capacidade de transformar opiniões em factos estorvaram e limitaram o pensamento e a capacidade de discernir e de analisar. Foi, acima de tudo, legitimado o supérfluo, o acessório, os mexericos e as bisbilhotices. A política mudou!

E agora que o mundo está líquido? Que caminhos nos esperam?

Continuar a assobiar poderia ser uma solução mas talvez seja perigoso. Sopram ventos na velha Europa, em particular, em França, na Itália e na Alemanha que podem gerar brevemente novas tempestades. Até porque a vitória do antissistema começa a ser uma tendência, o padrão e não uma simples exceção.

A política não pode continuar a ser gelada e hermética, fechada em si mesma. Não pode resumir-se a estratégias, a números, a jogos e a lugares em disputa. Tem de olhar para as pessoas, falar com elas, tocar nelas e necessariamente abordar os seus problemas, as suas ansiedades e necessidades, apontar caminhos e encontrar, se possível, soluções. Temos de voltar a humanizar a política para trazê-la de volta ao cidadão comum e ao seu dia-a-dia.

Até porque como afirmava Winston Churchill (século XX) “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”.

Eu (se não se importam) vou continuar a pensar pela minha cabeça, essa é uma das liberdades que não quero dispensar nem perder.

 

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