E chegaram os rankings…

Por Adelina Paula Pinto, Vice-presidente e vereadora da Câmara Municipal de Guimarães

Ainda o ano letivo se estava a despedir de todos nós e já cá tínhamos os habituais Rankings das escolas. Sim, no plural, porque há rankings para vários gostos, servindo para demonstrar, efetivamente, a falência dos mesmos.

Neste ano letivo verdadeiramente atípico devíamos estar, neste momento, a avaliar o funcionamento do modelo de ensino à distância. Avaliar efetivamente, com os atores principais: alunos, professores e pais e encarregados de educação e não com os milhentos artigos de opinião que foram germinando por todo o lado. Apesar de todos termos a nossa opinião, e eu também tenho a minha, o que importa realmente saber será: conseguimos ligar-nos a que percentagem de crianças e jovens? O que significa este “ligar”? Alguém realmente ouviu os alunos, percebeu como é que eles estavam, como era o ambiente familiar? Havia condições para a aprendizagem? Equipamentos, ligações à internet, espaços físicos adequados? Uma família que promovia a escolarização e a necessidade de continuar a aprender? Aprendizagens efetivamente conseguidas? Como estão os alunos agora, comparados com o que era expectável se o final do ano fosse normal? E como estão os professores? Confirma-se o burnout de que tanto se fala? Que dificuldades sentiram? E as famílias, de que forma chegaram ao final deste confinamento de três meses? Como se organizaram para que em cada sala de estar houvesse uma sala de aula?

Só as respostas a estas questões nos permitirão preparar bem o próximo ano letivo, saber se efetivamente há necessidade de um tempo para recuperação das aprendizagens e que alterações teremos de fazer caso haja necessidade dum novo confinamento (ou eventualmente de um modelo b-learning, uma parte presencial e uma parte à distância).

E se esta reflexão já não é fácil, mais complicada se tornou com a publicação dos ditos Rankings. Este ruído suplementar, exigente na interpretação de tantos gráficos, de tantas tabelas, de tantos casos de sucesso. Quantos de nós passaram o fim de semana de jornal em jornal a perceber os indicadores, as leituras difusas e subversivas, as explicações que só alguns percebem, até à inutilidade total de tal hierarquização.

Mas falta um trabalho suplementar, cruzar os dados dos rankings com os dados do ensino à distância. Aposto que as escolas que estão no topo de todas as listas são aquelas que tiveram um enorme sucesso no ensino à distância, com todos os meninos a acompanhar as aulas síncronas, acompanhados pelos pais, preocupados e ansiosos por participarem nas notas excelentes dos seus herdeiros ou pelo respetivo explicador, aquele ser tão importante, qual anjo protetor das notas superlativas! E as escolas que estão no fundo da tabela são aquelas em que grande parte dos meninos não têm computador ou Internet, onde os professores e funcionários faziam tantos quilómetros para entregar fotocópias, onde os serviços sociais entregavam as refeições, onde houve mais infeções pela COVID19 porque os pais tinham de continuar a trabalhar, tinham de continuar a andar de transporte público e não tinham tempo para acompanhar a escolarização do seu herdeiro.

Este país a duas velocidades exige um pensamento sobre a escola que queremos. Eu não tenho dúvidas, não quero a escola que treina os alunos para os exames, que o sucesso é sinónimo de explicador, a escola que deixa o mundo lá fora porque se centra num currículo obsoleto. Eu quero uma escola que olhe para cada criança, que o ajude a descobrir o seu talento, as suas áreas fortes, uma escola que ajude a ver o mundo a várias cores, uma escola onde a leitura seja o mote principal do dia, a escola que ensina a sonhar, a escola que tem ricos e pobres, excelentes alunos a umas disciplinas e menos bons a outras. Uma escola que valorize as artes e o desporto, uma escola que ensine a pensar, que desenvolva o espírito crítico e a cidadania. Uma escola de todos e para todos. Uma escola sem rankings!

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