É Presidente a mais!

Por César Machado.

Contava-se que um general de potência estrangeira acabado de entrar numa cidade de Espanha, espantado com a magnitude da chamada Plaza Mayor terá exclamado “Não vejo cidade para tanta praça”!

Não é nada que não ocorra quando se vê tanto Presidente da República! É muito Presidente da República! Como dizer isto sem ser ofensivo, nem para a pessoa nem para a Instituição? (Aqui convem recordar que a ofensa aos símbolos nacionais é crime. E o Presidente da República é um símbolo nacional. Ora, “num país em diminutivo, respeitinho é que é preciso”, como dizia o Alexandre O´Neil, esse “Grande poeta menor”, como de si mesmo dizia.

O grande Alexandre é que a sabia. Lá confessava que entrado em férias lhe “apetecia nadar o mar todo”. Pois! Por vezes dá a sensação que o nosso Presidente, muito dado a mergulhos e nadadelas, nada e surfa a toda a hora este mar todo que é Portugal. Que é homem para isso mostra-o todos os dias. E aguenta! Ai aguenta aguenta, como garantia um banqueiro da linha dura, falando da gente, quando a troika (arreda Satanás”!) aterrou na Portela e se instalou “feito posseiro” a falar para nós de cima da burra. Aguenta, pois. Ele aguenta, o homem. Ele nada tudo, ou tudo nada, que confunde menos. Ele nada-nos a todos! A questão é saber se aguentamos nós, que somos nadados a toda a hora, naquela volúpia sem limites de tempo ou espaço. (Aqui, seja permitida uma pequena nota autobiográfica, da Coimbra, quando jovem- amiudadas vezes fui advertido por um companheiro que me atirava com estas sábias palavras -“Machado, não podemos continuar sempre a protelar as coisas no tempo e no espaço”!!! Grande Antunes, que ainda hoje estou para perceber o que querias dizer com frase de tanto sumo! Qual Einstein, Antunes!)

Pois, a coisa é saber, dizia-se, se temos país para tanto presidente e televisões que o acompanhem. Há um incêndio num edifício em Lisboa e temos comentário do Presidente da República. Minutos antes tratara da detenção do Presidente do Benfica. A uma horas desse instante, arrumara com a assustadora subida dos números da pandemia, que as coisas são assim mesmo – alguém tem de falar no assunto! Na semana anterior, ou pouco mais, analisava a táctica usada pela selecção de futebol –meio em que igualmente nada à vontade, fala à especialista, ou, como diz agora a rapaziada, “à patrão”-, palpitando as mudanças de modelo de jogo, alvitrando alternativas ao plantel e outros gerúndios sobre o que vira, vira o disco e toca o mesmo no jogo seguinte, e parabéns oficiais para todos no final que, apesar de curta a estadia, prestigiante foi a participação. Mais alguns abraços na oficial recepção, poucos, que é o que se pode arranjar com a maldita pandemia, está arrumado, pronto, que amanhã são os da canoagem, que aqueles tipos não param de empodiuar!

Ora bem, como se pode abordar isto sem ferir susceptibilidades? Contava-se que na Soviética antiga, um respeitável ancião, membro do politburo, terá escrito carta à filha, estudante em universidade estrangeira (aqui uma advertência, por cautela- não se infira daqui que só os filhos dos membros do politburo se podiam dar ao luxo de estudar no estrangeiro, que isto é matéria sensível…sei lá! Ah, e também não se depreenda que os respeitáveis membros do politburo eram todos anciãos. Nunca se sabe o que se pode pensar quando anda mão de Moscovo, expressão muito ao gosto dos do antigamente, isto sem ofensa, é claro!), íamos na carta, portanto, que jurava estar a vida pela hora da morte. Ele era o preço disto, o preço daquilo, os preços não paravam de subir, coisa até de, no mercado, lhe terem pedido 30 rublos por um frango! 30 rublos! No mercado! A carta tinha de passar no vigia. E não passou.”Ó Camarada, não se pode dizer para o estrangeiro que a vida aqui está como diz, com preços dessa natureza. Corrija lá isso, fáxavor”.- “Com certeza, com certeza”. Na versão nova, que passou, dizia-se “Fui ao mercado, pediram-me 25 rublos por um elefante. Era carne a mais! Dei mais 5 e trouxe um frango”.

Ora bem, nós temos demasiados canais de televisão que usam e abusam das intervenções públicas, que o são na medida certa, do Senhor Presidente da República.

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