E se falássemos para os nossos pequenos?

Por Preza Fernandes,
Urologista.

Desta feita dedico esta crónica à pequenada e às dúvidas que os pais podem encontrar nos temas urológicos que os podem afetar.

A urologia pediátrica é um dos ramos da urologia que aborda os problemas relacionados com a criançada desde o nascimento aos 17 anos e 364 dias! Embora muitos destes problemas possam ter semelhanças com os adultos, existem especificidades e cuidados especiais para com os nossos infantes. Da imensidão de temas optei por falar de 3 problemas comuns e importantes para esta faixa etária! Espero que façam destas palavras bom uso e que estas possam contribuir para um crescimento feliz e sereno das vossas crianças.

Fimose (do grego pkimosis «aperto»)

A Fimose consiste na impossibilidade de retrair o prepúcio (pele que recobre a glande do pénis) na totalidade, provocada por um aperto da pele na sua extremidade e que causa um estrangulamento no pénis. Descansem pais, pois todos os rapazes à nascença são incapazes de retrair o prepúcio. Isto não se deve à existência de uma fimose (aperto) mas sim à presença de aderências no interior da pele entre o prepúcio e a glande. De forma a perceber-se melhor o que digo deixem-me dar uma analogia figurada. Imaginem uma luva que esta agarrada ao dedo por cola e que por mais que puxemos ela não sai do sítio. A aderência do prepúcio é isto e por conseguinte uma condição natural distinta de uma fimose do prepúcio À medida que ocorre o desenvolvimento natural do bebé estas aderências tendem a desaparecer e a pele se não houver fimose, passa a retrair-se sem dificuldade.

À medida que crescem, no final do primeiro ano de vida 50% dos rapazes serão capazes de retrair completamente a pele. Já estes números aumentam para 90% quando se atinge os 3 anos de idade . Apenas 8% dos rapazes com 6 e 7 anos e 1% dos adolescentes (16-18 anos) mantém fimose!

Por este motivo deixo aqui a primeira recomendação: não deve ser efetuada uma retração total, forçada e dolorosa do prepúcio em circunstância alguma. Além de ser traumatizante para a criança, pode levar ao desenvolvimento de um anel cicatricial (resultante do rasgo da pele do prepúcio) e consequente fimose secundária (ou seja provocada por uma manipulação)! A partir do momento em que isto se desenvolve passa a existir uma indicação absoluta para resolver o problema com cirurgia.

A abordagem deste problema, deve ser sempre que possível conservadora (ou seja sem intervenção cirúrgica). Normalmente começamos pela aplicação de um creme corticoide, na extremidade do prepúcio, duas vezes ao dia durante 4 a 8 semanas. Este tratamento resulta em sucesso em cerca de 80% dos casos.

Quando não existe uma resposta a este tratamento com o creme, quando existem infeções recorrentes do prepúcio ou da glande do pénis (as chamadas balanopostites) ou quando ocorrem infeções urinárias repetidas da bexiga ou dos rins deve ser ponderada a realização da circuncisão (remoção do prepúcio). A cirurgia pode consistir na remoção total (circuncisão radical) ou então na remoção parcial (circuncisão plástica) desta pele. A cirurgia é normalmente efetuada em ambulatório (entrada e saída em menos de 24horas) e é considerada uma cirurgia simples e segura.

Criptorquidia (cripto = escondido; orquis = testículo)

Criptorquidia consiste na ausência de descida de um ou ambos os testículos à bolsa escrotal. É uma das malformações dos recém nascidos mais comuns, afetando 1 a 4,6% dos bebés de termo (os que atingem as 38-40 semanas de gestação) e 1.1 a 45% dos bebés prematuros.

Importa distinguir criptorquidia de um problema menos grave que são os chamados testículos retrateis. Nestes casos os testículos alternam entre estarem dentro da bolsa ou no canal inguinal (à custa da contração anormal do musculo que os recobre e os faz subir) A maneira de distinguir da criptorquidia deste problema, é que nesta situação os testículos podem ser puxados, gentilmente com a mão do observador até ao escroto e ficam por lá alguns segundos antes de ascender. Ainda assim este problema deve ser vigiado pois em um terço das crianças pode ocorrer uma ausência de descida ou mesmo uma ascensão para uma posição mais escondida.

O tratamento depende da presença e localização dos testículos. Importa explicar que durante o nosso desenvolvimento no útero materno, os testículos não se desenvolvem dentro do escroto mas sim dentro do abdómen (num local perto de onde se localizam os nossos rins). À medida que o desenvolvimento fetal acontece, eles vão descendo até ao seu destino final à data do nascimento.

Assim conforme o sítio onde o testículo fica retido podemos classificar a criptorquidia em intraabdominal (dentro da barriga), inguinal (junto à virilha) ou então se perante a ausência total dos órgãos como testículos ausentes (nunca se chegaram a formar ou então formaram-se,“mirraram” e desapareceram!).

O tratamento da criptorquidia deve começar aos seis meses de idade e deve ser resolvido no limite até aos 18 meses da criança (preferencialmente 12 meses). Isto pois uma vez ultrapassada esta idade, a probabilidade de descida é mais reduzida com consequente risco de perda da função deste órgão (produção de testosterona e formação de espermatozoides mais tarde na adolescência) ou mesmo desenvolvimento de cancro neste testiculo.

O tratamento pode ser iniciado através da administração de injeções de hormonas (hormona GnRH) que promovem a descida do testículo. Este tratamento permite resolver com sucesso total em cerca de 20% dos casos.

No entanto se um testículo não estiver descido até ao 6º mês de vida, deve ser realizada uma cirurgia para o reposicionar no escroto (no limite até aos 18 meses de idade). As crianças com este problema devem ser vigiadas atentamente de forma a agir atempadamente e preferencialmente tratadas por médicos especializados e experimentados em urologia pediátrica.

Enurese nocturna (“molhar a cama”)

A enurese noturna é um problema benigno relativamente comun nas crianças (5-10% aos 7 anos de idade e 1 a 2% nos adolescentes). Podemos distinguir a enurese em primária (uma criança que nunca deixou de fazer xixi na cama) ou secundária (quando uma criança retoma as perdas de urina à noite depois de já ter estado sem perdas no passado).

Este problema causa uma série de aborrecimentos e constrangimentos tanto na criança como nos pais. Existe uma associação hereditária (transmitida dos pais) neste problema. Se um dos pais sofreu deste problema em criança existe uma probabilidade de 44 % deste problema acontecer nos seus filhos e se ambos passaram por este problema as hipóteses aumentam para 77%.

A causa mais comum para o desenvolvimento deste problema passa pela presença do chamado “sono pesado” na criança. Ou seja ele ou ela estão a dormir tão profundamente que não sentem o enchimento da bexiga a desperta-los para urinar.
Antes de iniciar qualquer tratamento para este problema importa tranquilizar os pais e as crianças que não há mal nenhum em isto estar a acontecer. Isto irá permitir uma abordagem do problema mais calma e eficaz.

A primeira coisa a fazer é reduzir a ingestão de líquidos nas 3 horas antes de a criança se deitar (isto envolve os leitinhos quentinhos ou iogurtes antes da hora da cama!). A sopa é um líquido não esquecer! Portanto deve tentar-se que seja o mais “pastosa” possível e a hora de jantar deve tentar-se que aconteça o mais afastada da hora de se deitar (as tais 3 horas preferencialmente). Eu bem sei como pai, o quão difícil isto pode ser. Entre as imensas corridas do dia e a chegada a casa com as exigências que a hora de jantar e a hora de se deitar demandam os trabalhos são hercúleos. Mas não desistam, “Tudo passa!” (Mantra da paternidade cá em casa)!

Outro método passa por despertar a criança a meio da noite de forma a leva-lo à casa de banho e evitar que o sono pesado seja o vencedor da equação!

Em casos onde estas técnicas não funcionam, podemos utilizar fármacos que reduzam a produção de urina durante a noite de forma a reduzir o enchimento da bexiga e evitar as perdas. Ressalvo que não devem ser tratadas desta forma as crianças com menos de 5 anos de idade pois têm uma alta probabilidade de resolução espontânea do problema e sem grandes chatices (apenas uns quantos lençóis molhados e uns resmungos a altas horas da madrugada).

A imensidão da urologia pediátrica daria para estar aqui a decorrer em variadíssimos temas interessantíssimos para os pais e para mim mas as páginas seriam sempre curtas (mas prazerosas)!

Queridos pais se entenderem que algo não está bem com a saúde urinária ou genital do(a) seu/sua pequeno(a) falem com o vosso pediatra ou com um urologista pediátrico/ cirurgião pediátrico e peçam ajuda! Ajuda atempada e informada é meio caminho para uma chegada a “bom porto”!

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