Errar é humano

Por Preza Fernandes,
Urologista.

Desta feita não há tema urológico! Optei por fazer uma pequena reflexão médica de um assunto, sobre o qual todos nós profissionais de saúde pensamos (principalmente os cirurgiões), mas quase sempre em surdina. Isto resulta do medo da imperfeição e do receio da acusação de má prática. No entanto enquanto escondermos este tema da luz do dia, nunca distinguiremos erro de imprudência ou de irresponsabilidade.

Esta reflexão não pretende ser um devaneio pessoal, mas sim um ponto de partida para alertar todos os que dedicaram algum tempo a ler estas linhas, que toda a relação entre médico e doente, tem de ser baseada numa conversa contínua, franca, honesta e bilateral. Não escamotear perguntas, medos e ansiedades bem como não esconder objetivos falhados é função tanto do paciente como do médico.

Errar é humano e da última vez que vi ao espelho ainda era… humano!

Isto veio a propósito de um comentário recente de um paciente meu (com quem a relação já se estendeu para o plano de uma certa amizade). À saída do gabinete e após ter assinado um consentimento para uma nova intervenção cirúrgica, dirigiu-me umas palavras, de conforto, afirmando que “apesar de tudo continua a ter toda a confiança em mim e no meu trabalho”. Este “tudo” é simples de explicar, mas difícil de relembrar! Há uns anos atrás, este meu caro amigo foi intervencionado por mim à próstata. No entanto apesar de todos os meus bons esforços, de toda a minha preparação cirúrgica e zelo médico, tudo correu ao contrário do expectável. Desde um internamento que se pretendia de 3 a 4 dias e que se estendeu a meses, ao desenvolvimento de uma infeção ou à necessidade de ser reoperado para corrigir um “erro de percurso”, este pós-operatório teve de tudo! A verdade é que ambos só descansamos realmente um sono justo no dia em que nos apartamos à porta do hospital.

Deste caso recordo-me, no entanto, que apesar de todas as intempéries, a nossa relação de confiança médico doente sobreviveu (e até se fortaleceu), porque procurei sempre ser honesto com todas as suas dúvidas e medos, explicando que também eu as tinha (e não foram poucas) mas que tinha planos sustentados para as ultrapassar. Não podia prometer o bom porto mas prometi sempre que enquanto tivesse forças e intelecto, iria dobrar os ventos a nosso favor. Nestes momentos a minha viagem não foi solitária, mas sim sustentada pela ajuda e confiança de muitos pares que prontamente me ajudaram a tomar as melhores decisões.

Mas por muito que tente ou que trabalhe para aumentar a minha empatia, nunca conseguirei perceber na totalidade qual o estado de espírito de alguém, que após confiar a sua saúde nas minhas mãos, se vê a par com um infortúnio mais ou menos grave. Acredito, porém, que seja um exercício importante de evolução e este texto pretende desvendar apenas o meu lado da equação. Seria um arrojo e possivelmente uma ofensa tratar nestas linhas o erro médico do lado do paciente.

Importa então neste ponto distinguir erro de imprudência/irresponsabilidade. Se realizar uma cirurgia para a qual não estou preparado estou a cometer uma imprudência com repercussões graves para a pessoa que em mim confiou. Agora se eu realizar uma cirurgia para a qual me preparei anos a fio, fui devidamente validado pelos meus pares e na qual estou devidamente experimentado e se nesta mesma ocorrer um desvio ao curso natural da cirurgia ou recuperação (ex hemorragia, lesão noutro órgão etc…) então aí é um acontecimento não propositado a que podemos apelidar de erro. Nestas situações das quais o paciente não tem culpa nenhuma, só pode esperar do seu clínico a melhor das atenções e ajudas a fim de regressar à pista correta. Não escondo que intuitivamente é normal julgar de imediato o profissional de saúde como incompetente. Peço apenas que questionem o profissional com toda a clareza e esperem do mesmo, igual franqueza e limpeza. Se a resposta for leal é sinal de que tem companheiro para a guerra.

Este texto não quer ser uma desculpabilização para o erro e muito menos para a incúria. Todos os dias os médicos e profissionais de saúde por este mundo fora, desenvolvem formas de diminuir ao irrisório o erro (humano) médico. Mas é bom que se entenda de uma vez por todas (nós profissionais de saúde bem como todos os pacientes) que não existe perfeição em lado nenhum e muito menos na medicina.

Nós médicos, devemos tentar ser mais francos com o fracasso, pois aí reside uma componente importante do nosso crescimento. Já os pacientes devem entender que estão a confiar numa pessoa de “carne e osso” e que essa confiança (que quando compreendida na totalidade pode gerar medo!) leva a uma maior “humanização” da nossa profissão pois afinal… Errar é humano!

P.S. Gracejo agora no final do texto e agradeço o facto de serem muito poucas as noites que passo mal dormidas do que as que descanso com um sono sereno!

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