ESPAÇO(S) FECHADO(S)

por ANA AMÉLIA GUIMARÃES
Professora

Há dias, um amigo confessava desalentado que tinha ido, a meio da manhã de domingo, ao  CIAJG ver “Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento” e que era o único visitante na exposição. A confissão não me surpreende, já tinha presenciado cena igual e a queixa vem sendo recorrente “quando se fala de cultura em Guimarães”. Não está em causa a exposição que era excelente, oportuna e muito bem organizada. O que está em discussão e preocupa é saber o que fazer com “aquilo”. Nesse mesmo domingo tive de me deslocar ao Porto e aproveitei para dar um saltinho a Serralves… e era uma quantidade imensa de público, nas exposições e visitas guiadas, bem como inúmeros os visitantes que flanavam pelo recinto do museu. Claro que Serralves está no concelho do Porto (216 000 hab.), com uma área metropolitana de 1 759 524 habitantes e 17 concelhos e beneficia de uma visibilidade que decorre de factores que o CIAJG não tem. Mas, mesmo tendo em ponderação tais diferenças, não deixa de ser surpreendente que, até à data, o CIAJG não tenha conseguido criar um público e muito menos uma “marca” junto daqueles que vivem no seu próprio concelho.
Esta plataforma cultural que o município mandou construir, depois de acabar com o mercado municipal – obra referenciada do arquitecto Marques da Silva – foi uma decisão política “imposta” cujos custos económicos e  de “qualidade de vida”, a cada dia que passa, se tornam mais óbvios e impossíveis de ignorar . Torna-se difícil compreender que o executivo camarário tenha optado por um equipamento daquela envergadura e naquele espaço, sem ter, como seria óbvio, um estudo sustentado e sério que justificasse a sua pertinência e sustentabilidade. Para contrariar estes números e esta estagnada situação temos o exemplo do concerto de ano novo pela Orquestra de Guimarães. Porquê? Talvez porque, como é referido no sítio da Câmara,  a orquestra seja “Constituída por elementos da região com um conhecimento alargado do meio artístico envolvente e da sociedade vimaranense” e “que pretende criar e fidelizar públicos, realizando concertos em horas que permitam a adesão de diversos públicos-alvo, promovendo concertos didáticos e direcionados para as famílias e escolhendo criteriosamente o repertório a interpretar”. Talvez porque seja constituída por “elementos da região com um conhecimento alargado do meio artístico envolvente e da sociedade vimaranense” ou/e porque existe uma escola de música, a AMVMS, com cerca de 500 alunos. Os públicos não caiem do céu. Enquanto a arte e a cultura se circunscrever a uma dimensão turístico-municipalizada, será muito difícil construir uma vivência da cultura mais democrática e significativa.
p.s. Na cidade, a autarquia possui vários espaços que primam pelo seu vazio ou nula atividade. No entanto músicos, artistas visuais ou grupos informais, que trabalham na área da cultura, não têm acesso a uma simples sala para ensaiarem, produzirem ou exporem o seu trabalho. Estes artistas e/ou grupos não querem mais que poder usar o que existe e é bem público. Porque não?

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