Fernandinha

Nome:
Fernanda Teixeira

Ano de nascimento:
1 de junho de 1929

Naturalidade:
Guimarães

Profissão:
Vendedora de fruta

A rua de Santa Maria está diferente, uma das suas referências mais importantes partiu no sábado, dia 16. Fernanda Teixeira, mais conhecida como Fernandinha da Fruta completava 92 anos no dia 1 de junho.

Nascida em 1929, ali naquela mesma rua, enfrentou muitas dificuldades e nunca parou de trabalhar, até aos últimos dias da sua vida. A família era grande, como eram quase todas naquele tempo. A mãe fez 18 partos (mais coisa menos coisa, que a memória do irmão da falecida também já se vai desvanecendo), sobreviveram dez.

As décadas de trinta e quarenta foram tempos de chumbo, primeiro a recessão depois a guerra, faltava quase tudo a todos, mas faltava ainda mais aos pobres. Em casa só entrava o salário do pai, trabalhador da construção civil. “Naquele tempo, quando chovia não trabalhava, quando não trabalhava não recebia”, conta José Pereira, irmão de Fernandinha.

“Ela era a mais velha e foi como uma mãe para nós todos, ajudou a criar-nos”, lembra o irmão, 18 anos mais novo. O destino quis que não criasse filhos seus, embora tenha casado. Ajudou a criar os irmãos e mais tarde criou um sobrinho. O marido partiu há quase quarenta anos. Nunca mais quis nenhum homem. Percorreu sozinha o último troço da vida.

Não se pode dizer que estivesse sozinha. Com banca montada na porta de casa, na rua onde nasceu, Fernanda tinha a companhia de todos os que por ali passavam.

Desde que o Centro Histórico foi classificado como Património da Humanidade, em 2001 e mais tarde com a Capital Europeia da Cultura, em 2012, o número de visitantes aumentou e a Fernandinha continuou ali, uma testemunha do passado. “A primeira vez que vim a Guimarães parei lá para comprar fruta, estava um dia muito quente. Aquela senhora parecia tão genuína, tão diferente das outras lojas para turista”, conta Márcia, uma brasileira que se apaixonou por Guimarães e agora planeia mudar-se para a cidade.

Fernanda nasceu na rua de Santa Maria, cresceu naquela que é uma das artérias mais antigas da cidade, casou com um homem daquela rua, ali fez vida e por ali findou os seus dias. Só as pedras são mais dali do que ela e nem todas.

“A nossa mãe também já tinha nascido na rua, no número nove, onde a Fernanda nasceu. Quando fizeram a pousada, a Câmara realojou as famílias num bairro social, em Urgezes, mas a minha mãe estava desesperada. Chorava noite e dia com a ideia de sair daquela rua”, conta José Pereira.

Vendo a mulher inconsolável, o pai de Fernandinha acabou por se decidir por outra casa na rua de Santa Maria. “O problema foi a renda. Na nova casa o senhorio pedia mil escudos (cinco euros), com compreensão acabou por se ficar nos 750 escudos, mesmo assim era muito mais que os seis escudos que pagávamos antes”, conta José Pereira. “O meu pai falou com todos nós, porque tínhamos de ajudar. Ficamos com a casa”.

Aquela seria a residência de família onde Fernanda ainda viveu com o marido, até se mudar para o lugar onde ficou conhecida pela a sua banca à porta de casa.

O irmão admira-a como “uma mulher de trabalho” que nunca parou. Nos melhores anos, terá ido uns dias à Póvoa do Varzim mas, o resto da vida consumiu-a na labuta. Nascida num meio muito pobre, não perdeu a noção de que há outros com mais dificuldades. Era a cozinheira da centenária Ceia de São Crispim, a consoada que a Irmandade de São Crispim e São Crispiniano oferece anualmente aos pobres da cidade. “Este ano não a deixei ir” – confessa o irmão – “estava já muito cansada. Mas, foi o primeiro ano que ela não foi”.

Por todo o mundo há instantâneos da simpatia desta vimaranense. Mesmo sem falar inglês, estabelecia comunicação com os turistas que, encantados, lhe pediam para tirar uma fotografia.

Os turistas vão e vêm, rostos anónimos. A Fernandinha partiu para sempre, mas deixou uma marca no coração da cidade.

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