FERREIRA DA CUNHA

Nome completo: Jerónimo Sousa Gonçalves Silva
Nascimento:16 de Abril 1958 Guimarães, Portugal
Profissão: Ferreiro e Artesão

Quem por ali passa julga que o homem que há 47 anos está por trás do balcão da loja Ferreira da Cunha, em pleno Largo do Toural, se chama, efetivamente Ferreira da Cunha. Mas não. Jerónimo Sousa Gonçalves Silva nasceu na tradicional rua D. João I e, quando terminou a quarta classe, ainda andou umas semanas na “gandulice” mas a 22 de setembro de 1969 começou a trabalhar na loja de ferragens que hoje conhecemos.

Aliás o Ferreira da Cunha, a loja e não o homem, é eterno no tempo. Como o próprio Jerónimo diz, “a loja é hoje como era em 1969 e como era em 1920”. “Já quis fazer uma limpeza mas os clientes são contra”, diz. Uns anos mais tarde, aos 14 anos (ano em que a mãe faleceu, o pai já tinha partido quando o petiz tinha apenas oito anos), “quando já tinha as chaves para abrir e fechar a loja”, Jerónimo ingressou na Escola Industrial onde estudou Mecanicotecnica e Eletrotecnia. Fez o 12º ano em que aprendeu a trabalhar na forja e no torno e como sempre teve jeito para o desenho: “Faço os desenhos de todos as ferragens, os clientes trazem os desenhos, eu faço, fotografo, o cliente diz ‘adorei’ e encomenda”.

É isto que faz da Ferreira da Cunha “uma loja com caraterísticas que ninguém tem”. “Se eu acho que não vai ficar bem eu chamo a atenção ao cliente. Eu quero que eles entrem clientes e saiam amigos. Por isso se mantém em pleno século XXI. Ser muito honesto com o cliente, ao mesmo tempo que o vamos ‘maltratando’ e ‘torturando’”, brinca. Afirma o gosto de “dar aos clientes 47 anos de trabalho. Não estão a pagar pelo ferro mas pelos conhecimentos”.

Tem a loja desde 1984 e é uma filha, tal como as duas meninas que tem de 30 e 24 anos. Vê com receio a continuidade desta tradicional loja vimaranense porque sabe que o “Ferreira da Cunha é ele”. Mas olha esperançoso para o genro “que poderá seguir os seus passos”. “Tem muito jeito, trabalha comigo e poderá suceder-me”, conta, enquanto prevê o desgosto que teria em ver a casa morrer.

Apresenta-me o livro dos bons clientes onde guarda desenhos e acertos de contas, algumas ainda em escudos. “A lei diz que tenho que ter um livro de reclamações mas também tenho um livro de louvações que está carregado de elogios”, o documento também disponível para os muitos turistas que visitam a casa e que “escrevem na língua deles”.

Jerónimo tem clientes no mundo inteiro. A mais distante está nos antípodas de Portugal, na Nova Zelândia. “Uma senhora, com cerca de 80 anos, vem cá uma vez por mês comprar ferragens para um restauro que está a fazer na Nova Zelândia. Chega cá e em inglês explica-me o que quer. Eu faço um desenho, digo lhe quantos dias tem que estar à espera. Quando tenho o trabalho pronto, ligo-lhe para o hotel para vir buscar o material. E há mais por esse mundo fora. Ainda no ano passado fui montar um portão à Madeira”.

Homem do seu tempo, um apaixonado pela história, de olhar curioso sobre o mundo e o Toural, o som de fundo da nossa conversa é dos Pink Floyd. Toca em loop neste espaço que serve de ponto de encontro a outros da sua geração. Ali, sob a égide de ferragens, algumas delas centenárias, se forjaram várias mentes da sociedade vimaranense.

Por: Catarina Castro Abreu

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