Festivais Gil Vicente dão voz à nova geração de teatro

Estão de regresso, para a sua 34ª edição, os Festivais Gil Vivente com uma programação artística que promete “dar voz à nova geração do teatro”.

© Juliana Machado / Mais Guimarães

Ao longo de duas semanas, entre 2 e 11 de junho, Guimarães reforça a sua posição como epicentro da cultura com um conjunto de iniciativas que pretende envolver o público nos espetáculos em si, mas também em toda a experiência que resultam deles. Debates, conversas e contacto com os artistas estão novamente nos planos, uma vez que o desconfinamento assim o permite.

Este ano, à semelhança do que aconteceu no ano passado, os Festivais Gil Vicente atravessaram um processo de renovação que teve como objetivo “repensar esta nova fase com a abertura a novas vozes, novos protagonistas e novas dramaturgias”, explicou Rui Torrinha, diretor artístico do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), numa sessão de apresentação que decorreu esta manhã, no mesmo local.

Os seis espetáculos que compõe a programação refletem o “tempo fraturante que vivemos, tanto a nível mundial, como a nível local”, assim como as “novas questões que se levantam em torno daquilo que é a organização da sociedade no mundo atual”. Assim, “o investimento na criação mantém-se, através de duas co-produções que são estreias absolutas desta edição de 2022”, no Centro Cultural Vila Flor.

“Tratado Constituição Universal”, de Diogo Freitas, vai abrir a edição, a 2 de junho. Trata-se de uma “proposta arriscada” que coloca em pensamento uma nova organização. Através de um dispositivo, os cidadãos são convocados a votar e viver num regime à sua escolha. O espetáculo propõe a ousadia de pensar a forma como o caos se relacionaria com uma nova organização mundial.

“Massa Mãe”, de Sara Inês Gigante, é a segunda grande estreia, apresentada a 3 de junho. A peça propõe “pensar a tradição e a sua renovação”, com especial enfoque na zona do Minho. “Passamos da ideia do universal para a ideia do local, para a gestão e renovação das tradições, assim como a forma como elas ainda nos representam e ainda nos ajudam a definir a nossa identidade”, explicou Rui Torrinha.

A fechar a primeira semana de festival, a 4 de junho será apresentada a peça “Limbo” de Victor Oliveira. O encenador e intérprete de origem moçambicana coloca em cima da mesa o colonialismo, juntamente com “uma série de questões fundamentais que continuamos a questionar”.

“Tratado Constituição Universal” foi a peça vencedora da bolsa Amélia Rey Colaço, uma parceria entre A’Oficina, o Teatro Nacional D. Maria II, o Teatro Viriato e o Espaço do Tempo. “Massa Mãe” foi uma das finalistas apuradas para o galardão.

Fazem ainda parte da programação “O Desprezo”, da Auééé, a 9 de junho, e “Another Rose”, de Sofia Santos Silva, no dia seguinte. “Ainda Marianas” de Catarina Rôlo Salgueiro, Leonor Buesco e Os Possessos encerram o elenco desta 24ª edição.

Formação é prioridade

Enquanto “companhia da casa”, A Oficina irá desenvolver, em paralelo com a restante programação, as Jornadas de Formação. Sara Barros Leitão, diretora artística do Teatro Oficina, evidenciou que “o setor da cultura está muito fragilizado e ainda não conseguiu retomar na sua totalidade, muito menos as pessoas que, entretanto, terminaram os estudos em teatro, luz, produção e som”. Assim, as jornadas são dedicadas aquele estão agora a começar a sua vida profissional.

“Depois do fim: Um ciclo sobre o que acontece quando a escola acaba” vai dividir-se em dois momentos. “De que nos serve a ilusão?” é o mote do workshop de teatro é leccionado pela atriz e encenadora Beatriz Batarda, nos dias 6, 7, 8 e 9 de junho, no Espaço Oficina. O workshop é gratuito, tem 14 vagas, mas haverá uma pré-seleção que será realizada pela formadora.

Por sua vez, as Jornadas de Teatro são dedicadas aos jovens que estão ainda na escola e que vão sair brevemente para o mercado de trabalho. Com a consciência de que “é uma transição muito difícil de fazer”, a diretora artística do Teatro Oficina quer ajudar os jovens a “perceber como é que se começa”, lidando com questões como a “abertura de atividade, o que é um contrato de trabalho ou um recibo verde ou mesmo como entrar no mercado de trabalho sem dívidas à segurança social”.

Todas as propostas d’A Oficina acontecem “durante o dia para que os públicos se possam cruzar e possam fazer formação durante o dia, ver espetáculos e cruzarem-se com os artistas à noite”, explicou Sara Barros Leitão.

Filipa Pereira, presidente do Círculo de Arte e Recreio (CAR), entidade responsável pelas primeiras edições do festival, saudou a aposta na formação, algo sempre foi uma prioridade dos Festivais Gil Vicente.

“Esta componente da formação e da capacitação funciona muito bem. Vem trazer um diferente contexto aquilo que é o teatro a que todos estamos habituados a ir, mas não percebemos os contextos e os meandros que estão por trás, ou seja, tudo aquilo que é a produção”, destacou a responsável.

Para Paulo Lopes Silva, vereador da Cultura na Câmara Municipal de Guimarães e presidente d’A Oficina, a programação dos Festivais Gil Vicente “levanta as questões que têm de ser levantadas, coloca-as no sítio certo, sem qualquer receio de as colocar na agenda, porque esse também é o papel da arte e da cultura”.

O responsável mostrou-se satisfeito pelo regresso aos palcos e agradeceu o empenho de todas as entidades envolvidas na programação que “se preocupa com a criação, mas também que essa mesma criação nos dê motivos de debate, de encontro e discussão em torno dessa comunidade que criamos à volta do festival”.

Os Festivais Gil Vicente representam um investimento de 55 mil euros, valor semelhante ao das edições anteriores, adiantou ainda Paulo Lopes Silva.

O passe geral que permite o acesso a todos os espetáculos tem o custo de 30 euros. Há também bilhetes disponíveis a 15 euros que dão acesso a três espetáculos.

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