Guimarães despede-se de Emílio Macedo da Silva

Morreu aos 73 anos uma das figuras ligadas ao associativismo, ao desporto e à vida empresarial vimaranense. Foi autarca em Sande São Martinho, fundador dos Sandinenses, empresário e dirigente do Vitória Sport Clube.

@ JF Sande São Martinho

Guimarães despediu-se esta terça-feira, 18 de agosto, de Emílio Macedo da Silva, uma figura com um percurso profundamente ligado à vida associativa, desportiva e empresarial do concelho. Morreu subitamente na passada quinta-feira, 13 de agosto, aos 73 anos, enquanto passava férias no Algarve. Conhecido pelos mais próximos como “Milo”, Emílio Macedo da Silva deixou um percurso marcado pela participação na vida da sua freguesia, pelo envolvimento no movimento associativo e desportivo e por vários anos de dedicação ao Vitória Sport Clube.

A notícia da sua morte surpreendeu familiares, amigos e instituições que com ele partilharam décadas de vida e que, nos últimos dias, têm recordado o seu carácter e o contributo que deu à comunidade.

Uma vida ligada a Sande São Martinho

Nascido em Guimarães, a 16 de outubro de 1952, Emílio Macedo da Silva assumiu, em 1986, a presidência da Junta de Freguesia de Sande São Martinho, cargo que desempenhou até 1998. A Junta de Freguesia recordou-o como alguém que deixou “um legado” na comunidade e destacou o seu papel enquanto “cidadão ativo tanto na vida social e desportiva das nossas Instituições”.

Foi também na freguesia que nasceu uma das ligações mais duradouras do seu percurso: o GDRC Os Sandinenses, coletividade que fundou e presidiu e à qual permaneceu ligado durante muitos anos.

A sua intervenção na comunidade estendeu-se para além da política local e do associativismo. Emílio Macedo da Silva desenvolveu também atividade empresarial na área da construção civil e esteve ligado à imprensa desportiva vimaranense, como um dos sócios-fundadores do semanário Desportivo de Guimarães.

Do associativismo local ao Vitória

A experiência acumulada no movimento associativo e desportivo acabou por conduzi-lo ao Vitória Sport Clube. Depois de integrar a direção liderada por Vítor Magalhães como vice-presidente, assumiu a presidência do clube em 2007, função que desempenhou até 2012. Foi um período particularmente intenso da história do Vitória. Sob a sua presidência, o clube regressou à I Liga em 2007 e, na época seguinte, alcançou o terceiro lugar no campeonato nacional, garantindo a presença na pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Mas a sua ação no clube não se limitou ao futebol. Durante a sua presidência, o Vitória conquistou o campeonato nacional de voleibol masculino e a primeira Taça de Portugal de basquetebol masculino, entre outros resultados nas várias modalidades.

O antigo dirigente do Vitória e amigo de longa data, Luís Cirilo, que conheceu Emílio ainda nos anos 1980, considera que o Vitória “deve muito” ao antigo presidente, destacando sobretudo a coragem de assumir a liderança do clube num momento particularmente difícil. “Teve a coragem de em 2007 pegar num clube à deriva e mergulhado em lugares do fundo da tabela na II divisão”, recorda. Para Cirilo, Emílio foi também “o presidente daquele que foi até agora o último terceiro lugar no campeonato” e “o presidente que levou o Vitória à porta da fase de grupos da Liga dos Campeões”.

Luís Cirilo destaca ainda a forma como Emílio Macedo da Silva olhou para as diferentes modalidades. “Talvez o presidente, repito, que olhou para as modalidades de forma mais ambiciosa percebendo a importância do ecletismo no clube”, considera.

Um homem para além dos cargos

Mais do que os cargos que desempenhou, quem conviveu com Emílio Macedo da Silva recorda a pessoa. Luís Cirilo manteve com ele uma relação de amizade durante cerca de quatro décadas, mesmo quando estiveram em lados diferentes nas disputas internas do Vitória, nomeadamente nas eleições de 2010. “Felizmente sempre soubemos separar a relação pessoal das divergências associativas”, explica, recordando que Emílio chegou inclusivamente a convidá-lo para integrar a direção depois da saída de Júlio Mendes.

Os últimos anos da sua passagem pelo Vitória foram marcados por dificuldades financeiras e judiciais e pela saída da presidência em 2012. Ainda assim, segundo Luís Cirilo, Emílio nunca deixou de acompanhar o clube. “Honra lhe seja feita continuou a frequentar o estádio, a votar nas eleições, a acompanhar com interesse a vida do clube”, recorda.

A última conversa entre ambos aconteceu há mais de um ano. Ficou então combinado um almoço que já não chegará a acontecer. “De Emílio Macedo da Silva guardarei sempre a imagem de um homem bom e amigo dos seus amigos”, afirma Luís Cirilo.

“Fará também parte da minha própria história”

Júlio Mendes conheceu Emílio num contexto diferente: integrou a sua direção no Vitória como vice-presidente para o marketing e o património, antes de lhe suceder na presidência do clube.

“A notícia deixa-me uma tristeza particular”, escreveu Júlio Mendes, lembrando os “anos intensos” que ambos viveram num dos períodos mais exigentes da história do Vitória. Foram anos de “alegrias, dificuldades, decisões difíceis e, naturalmente, momentos de divergência”, mas também de uma paixão comum pelo clube e pela responsabilidade de o servir. Júlio Mendes recorda uma presidência marcada pelo regresso à I Liga e pelo terceiro lugar alcançado em 2008, que levou o Vitória, pela primeira vez, à pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Mas, acima de tudo, deixa uma nota sobre a dimensão humana de Emílio: “Num momento particularmente difícil, teve a coragem de assumir a responsabilidade de o liderar.”

“Emílio Macedo da Silva faz parte da história do Vitória e, para mim, fará também parte da minha própria história no clube”, escreveu.

Uma despedida com a comunidade

A dimensão do percurso de Emílio Macedo da Silva ficou também refletida na despedida desta terça-feira. Antes do funeral, o carro fúnebre parou junto à fachada principal do Estádio D. Afonso Henriques, onde familiares, dirigentes, antigos e atuais membros dos órgãos sociais, funcionários e adeptos prestaram uma última homenagem.

O momento foi assinalado com um minuto de silêncio, seguido de um aplauso. O presidente do Vitória, Rui Rodrigues, depositou uma coroa de flores e entregou uma bandeira do clube à família.

O Vitória, na nota de pesar publicada após a sua morte, recordou ainda o percurso de Emílio ligado ao desporto e à imprensa vimaranense, destacando a fundação e presidência de Os Sandinenses e a participação na fundação do Desportivo de Guimarães. O clube descreveu-o como “um homem afável e humilde” e sublinhou que continuou a ser presença assídua no estádio até ao final da vida.

Autarca, dirigente associativo, empresário, homem ligado à imprensa e dirigente desportivo, Emílio Macedo da Silva deixa uma marca que ultrapassa os cargos que ocupou. Fica, sobretudo, a memória de uma vida dedicada à sua terra, ao associativismo e às instituições que ajudou a construir.

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