ISTO ANDA TUDO TROCADO

António Rocha e Costa,

Analista Clínico

A velha figueira do meu quintal exibe, em pleno mês de Abril, dezenas de figos precoces, que, sendo grandes, ainda estão verdes. Tal como outras espécies arbóreas, também esta infringe as regras ditadas pelo BORDA D’ÁGUA, antecipando em cerca de 3 meses a evolução natural que termina com o fruto maduro, pronto a ser colhido.

Este fenómeno, cada vez mais presente no nosso quotidiano, constitui a metáfora perfeita dos tempos em que vivemos, com o mundo às avessas e as coisas todas trocadas.

O que há muito era dado como adquirido deixou de o ser e as pessoas sentem-se por vezes confusas e perplexas, sem conseguirem ler os sinais de um tempo em acelerada e profunda mudança.
Serve este introito como ponto de partida para a reflexão que se segue, tendo como referência o 1º de Maio, dia do trabalhador, celebrado quase em todo o mundo pelas organizações sindicais e não só.

Por definição, sindicato é uma associação de pessoas que exercem a mesma profissão ou profissões similares, com vista à defesa dos direitos comuns de âmbito profissional. Mas será que esta definição ainda vigora nos tempos actuais? A avaliar pelos acontecimentos mais recentes, de que destaco a greve cirúrgica dos enfermeiros e a dos condutores de camiões de transporte de materiais perigosos, só podemos concluir que, também no que toca ao movimento sindical, as coisas já não são o que eram, estando num processo de metamorfose, sem que se possa vislumbrar o novo figurino que daí irá resultar.

Até agora, as centrais sindicais negociavam com os outros parceiros e com o governo, em sede de concertação social, procurando de forma razoável e equilibrada, defender os direitos dos trabalhadores por elas representados, tendo em vista a melhoria das condições do trabalho e de vida.

Entretanto, à medida que foram surgindo novas organizações, chegando-se ao cúmulo de a mesma profissão ser representada por dezenas de sindicatos, com orientações, métodos e até objectivos diferentes, assistimos por vezes ao espectáculo deprimente da desvirtuação, por exemplo, do direito à greve, ao mesmo tempo que os interesses individuais e de classe se sobrepõem a direitos mais universais, como são o direito à saúde e à vida.

Não pretendendo questionar os legítimos direitos das diferentes classes profissionais, que devem ser defendidos afincadamente, não posso contudo aceitar que se caia numa situação de “vale tudo”, em que umas dezenas de pessoas resolvem constituir-se, de um dia para o outro, num sindicato, com o objectivo de levar a cabo um processo de luta cada vez menos ortodoxo e por vezes selvagem.

Mas se já é pouco compreensível que dentro da mesma profissão existam dezenas de visões diferentes sobre a forma de defender os mesmos direitos, menos compreensível ainda é o facto de as greves, como forma suprema de luta sindical, serem financiadas de forma pouco transparente pelo chamado processo de “crowdfunding”.

Há dias um jornal de âmbito nacional, fazia manchete com a frase: “Sobraram 246 mil euros no fundo de greve dos enfermeiros”. Com esta verba, dizia um dos organizadores da greve cirúrgica, poderemos financiar “uma luta que ainda não terminou”. Ou seja: também no que toca aos fundos de greve, passará a vigorar doravante o pagamento especial por conta.

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