MAIS DO QUE IMAGINAÇÃO

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

Para apontar caminhos e utopias é de facto necessário ter talento, mas poderá alguém sem aptidão (qualidade) ser capaz de as concretizar?

O símbolo ∞ denominado de lemniscata introduzido por John Wallis (século XVII) representa o conceito infinito. Pensa-se que deriva do número romano M (1000) que terá por sua vez derivado do sistema de numeração etrusco em que 1000 se representava por CIƆ e que expressava o conceito de muitos, outra hipótese é derivar da letra grega ω (Omega) que denota o último, o fim, ou o limite último de um conjunto. O símbolo apresenta-se como um oito deitado que descreve uma figura que não tem princípio nem fim.

A palavra infinito vem do latim infinitu que significa o que é incontável; imensamente vasto e numeroso. Infinito significa que algo é maior que toda a grandeza dada; o absoluto; eterno; o que a razão humana não pode alcançar; que não tem fim ou limites, i.e., o ilimitado.

Esta ideia de um fim que não tem fim, que pode ser sempre estendido, procurado e nunca encontrado, é bem personificado em Buzz Lightyear (personagem de animação em Toy Story) com o lema “ao infinito… e além” e o uso descomedido que hoje se faz da imaginação, a “famosa” imaginação sem limites (infinita), que nos remete para a fantasia e para a desconfiança que ela insere em si mesmo.

A imaginação (do latim imaginatióne que significa imagem) é a representação da realidade ou dos objetos e não a coisa em si; a faculdade de representar objetos pelo pensamento; faculdade de inventar; criar; conceber.

Platão (século V a.C.) menosprezava a imaginação por entender que era um nível inferior do conhecimento (devaneios da mente). Blaise Pascal (século XVII) considerava-a como sendo produtora da falsidade e do erro. Para René Descartes (século XVII) a imaginação produz a aparência e erros no espírito. Por seu lado, Immanuel Kant (século XVIII) considerou que a imaginação é a faculdade das imagens. Mas para Gaston Bachelard (século XX) a imaginação é a faculdade de invenção e de renovação.

Apesar de uma aparente depreciação a imaginação é uma atividade humana essencial, porque confere ao Homo sapiens a capacidade de conceber imagens (mentais) e poder pensar além da própria realidade, inovando-a e como tal é parte integrante da racionalidade e do conhecimento.

Mas MAIS DO QUE IMAGINAÇÃO é essencial garantir os alicerces dessa imaginação.

A evolução explica-nos que existem dois fatores basilares que definem estes alicerces: o talento e a aptidão. O talento é congênito, é uma oferta que vem no nosso ADN, nasce com o Homem e portanto não há muito o que fazer para o emendar. A aptidão (habilidade) é conquistada (ganha) ao longo da vida e consequentemente pode ser ensinada, formada, desenvolvida e apurada.

Temos hoje demasiados exemplos de auto proclamados visionários que usam e abusam de um pretenso talento para nos indicar (decidir) os caminhos que devemos seguir. A falta gritante de aptidão e de qualidade que demonstram está fortemente materializado no estado em que nos encontramos enquanto coletivo/sociedade. Os fazedores de ilusões dominam as arenas do poder e da decisão.

Para apontar caminhos e utopias é de facto necessário ter talento, mas poderá alguém sem aptidão (qualidade) ser capaz de as concretizar?

Estaremos nós num beco sem saída? NÃO!

Como, sempre, aprendi a desconfiar da sorte, até porque ela tem uma probabilidade de ocorrência relativamente baixa, desconfio que seria muito mais realista e confiável apostar no conhecimento, na capacidade e na inteligência, i.e., no ENSINO, na FORMAÇÂO e na CULTURA. Um povo instruído e culto é um povo livre e capaz de fazer escolhas esclarecidas, com critério, com qualidade e imaginação.

O caminho há muito que é conhecido, basta não nos desviarmos. Até porque como alguém dizia a melhor maneira de nos prepararmos para o futuro é concentrar toda a imaginação e entusiasmo na execução perfeita do trabalho de hoje (Dale Carnegie).

 

Nota: Parabéns a Guimarães porque iniciativas como os projetos ExcentriCidade e Curtir Ciência – Centro de Ciência Viva são excelentes exemplos de uma imaginação sustentada em alicerces de qualidade.

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