MARIA DA GRAÇA

Nome completo: Maria da Graça Rebelo da Cunha
Nascimento: 26 de Setembro 1948 Mondim de Basto, Portugal
Profissão: Professora (Reformada)

Não quer falar dela. É “mais necessário” que a conversa seja sobre a associação que dirige: a Associação Vencedores do Cancro Unidos pela Vida (AVCUPV), que tem uma série de ações a decorrer. Do seu perfil faz parte a liderança de projetos como a passadeira solidária. Várias juntas de freguesia são convidadas a aumentarem esta passadeira incentivando os cidadãos a comprarem um (ou vários) quadrado por um euro. E a passadeira vai aumentando até um dia atingir o valor de que precisam. 170 mil quadrados, que é como quem diz 170 mil euros para comprar um mamógrafo digital para o Hospital Senhora da Oliveira.

A AVCUPV ajuda pessoas afetadas pelo cancro nas suas despesas de transporte e alimentação. Também dão apoio a doentes terminais para que tenham “uma partida digna”. O suporte financeiro vem dos quase 200 sócios e da lojinha da rua D. João I. “Pedimos às pessoas que deixem aqui roupa, calçado, bibelots, o que já não precisem para que possamos vender a preços simbólicos”, diz Maria da Graça. Recolhem ainda donativos junto de empresas amigas que mandam para a lojinha os excedentes de produção.

Mas Maria da Graça tem outra ideia em mente. Criar o cantinho da autoestima. “O cancro não destrói apenas o nosso corpo mas também o nosso ânimo. Um dia uma rapariga nos seus 30 anos apareceu aqui com um capuz na cabeça e uma peruca mal ajeitada. Penteei-a, fiz-lhe um risco nas sobrancelhas e nos olhos para disfarçar a falta de pelo e disse-lhe que comprasse maquilhagem. Há pouco tempo voltou aqui e quase nem a reconheci” com os primeiros cabelos a despontarem após o tratamento de quimioterapia.

“Já fui bater às portas das lojas de cosmética para deixarem aqui os seus excedentes e podermos melhorar o visual das nossas utentes. Ainda não consegui, mas se não consigo hoje, hei de conseguir amanhã”, dá conta esta mulher que herdou da família este “espírito de comerciante” que decidiu usar para ajudar os outros.

O nome de Maria da Graça é indissociável da instituição que ajudou a formar. Por isso, quer e precisa de dar cara contra o tabu que ainda é ter cancro. Lembra que há “pessoas que faleceram e que a família nunca soube que tiveram a doença porque ainda existe um certo estigma, sobretudo nas pessoas mais velhas”. E esse é um dos piores dos males que resultam desta condição.

Maria da Graça tem 67 anos e descobriu o cancro nos intestinos aos 57 anos. Sente-se uma afortunada por ainda cá andar: “Sabe, depois de ter cancro uma pessoa aprende a relativizar, as coisas miudinhas já não me preocupam e aprendi a olhar mais para os outros do que para mim”, diz-me. A Graça chegou de uma difícil operação de remoção do tumor e de uma parte do intestino. Não teve que fazer quimio e radioterapias. Mas ficou ostomizada. E não tem vergonha nenhuma.

“Por que é que hei de ter vergonha de uma coisa tão normal?”, questiona-se. É por isso que já se reuniu em escolas com alunos e lhes explicou que tinha “um saquinho colado à barriga e que não há mal nenhum. Posso usar calças e tudo!”. Os miúdos ficaram um “bocado chocados” mas tem que se começar a tratar estas questões desde cedo, desmistificando o tabu e incentivando os diagnósticos precoces. Afinal estas são, para Maria da Graça, as armas fundamentais de combate à doença.

Por: Catarina Castro Abreu

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