NOTÍCIAS DE UM PAÍS À BEIRA MAR ENCALHADO

Por António Rocha e Costa

Analista Clínico

Chegamos a Domingo à noite e ainda não tenho assunto para a minha crónica. A proliferação de notícias e de comentários sobre as mesmas, na imprensa escrita e falada e nas redes sociais, torna cada vez mais difícil a tarefa do escriba, em fazer chegar aos leitores algo de interessante e original. Devidamente concentrado, estou sentado, com os cotovelos apoiados na secretária e a cabeça apoiada em ambas as mãos, posição típica de quem busca inspiração. Ligo a televisão em busca de algo que possa servir de tema para a minha escrita e de repente aí está um bom assunto: O canal dois da RTP está a transmitir excelentes imagens sobre a EXPO 98, que comemora precisamente 20 anos. Ao olhar para o pequeno ecrã revejo com alguma nostalgia, aqueles momentos épicos, autêntico hino à capacidade de realização dos Portugueses, que, quando querem e são bem dirigidos, conseguem o impossível. Assim foi, pesem embora as diferenças, aquando das conquistas no início da nacionalidade e dos Descobrimentos.

Mil novecentos e noventa e oito, ano da EXPO e 2004, ano do Campeonato Europeu de Futebol, ficaram na memória dos portugueses como sendo os anos de ouro da nossa história mais recente. Mas como somos um povo do “tudo ou nada”, a partir daí foi sempre a descer, até chegarmos à triste situação em que ainda hoje nos encontramos. Afogados na dívida e obcecados pelo défice, não conseguimos, qual navio encalhado junto à costa, rumar até à terra prometida. Enquanto isso os vendedores de ilusões, leia-se governantes, vão-nos inundando com falsas promessas, que só servem para destruir a pouca confiança que neles ainda depositamos. Casos recentes como o do “INFARMED” e da “ala pediátrica do S. João”, para não falar de outros, põem a nu a impotência de um “poder” que vai sendo triturado pela máquina burocrática do estado e das instâncias europeias. Chega a ser patético ouvir o nosso primeiro-ministro anunciar pela enésima vez a construção do novo aeroporto no Montijo, quando não consegue cumprir as promessas mais triviais.

Continuando a fazer “zapping”, esbarro no tema do momento: a situação da Justiça em Portugal. Fala-se de Tancos, do Benfica, da substituição da Procuradora Geral e do sorteio que escolheu o juiz que irá tomar conta do “caso Sócrates”, na fase seguinte do processo.

A escolha, por sorteio, entre apenas duas figuras, fez-me lembrar, não sendo exactamente a mesma coisa, um caso ocorrido numa freguesia nos arredores de Guimarães, nos anos sessenta do século passado, em que o prior, ou o vigário, se preferirem, resolveu fazer um sorteio para angariar fundos para as obras da igreja. Vendidos todos os bilhetes, o senhor abade escolheu a missa dominical para anunciar o resultado do sorteio e dirigindo-se aos paroquianos presentes proclamou: “caros paroquianos: realizado o sorteio, quis Deus nosso Senhor que o carro (1º prémio) saísse ao vosso prior e a bicicleta (2º prémio) ao sacristão. Falta saber se o povo crente e submisso, rematou com o habitual “Amém”.

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