O ALGODÃO ENGANA

José João Torrinha,

Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

O “tudólogo” é um espécime que tem prosperado no mundo dos media. Escrevo a palavra e o word ainda a sublinha a vermelho, mas a verdade é que a maioria dos dicionários online já nos explica que o tudólogo é aquele que fala sobre tudo, apresentando-se como pretenso especialista sobre toda e qualquer matéria.

Já a todos deve ter acontecido estar um dia a ouvir um desses “especialistas de tudo” a perorar sobre um tema da nossa própria área de saber e perceber que toda aquela suposta sabedoria está afinal colada com cuspo…

Mas se nas TVs não faltam tudólogos a toda a hora, a impressão que dá é que essa doença de falar de cátedra sobre toda e qualquer coisa se tem espalhado pelo país como um verdadeiro vírus. De cada vez que um novo assunto está na ordem do dia, verificamos que Portugal está pejado de especialistas sobre qualquer tema. Ele é especialistas sobre incêndios a perorar sobre a melhor estratégia de combate aos ditos, ele é especialistas sobre educação a mandar postas de pescada sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores, ele é especialistas em direito processual penal, opinando sobre as medidas de coação que devem ser decretadas pelo Tribunal.

Note-se: isto não quer dizer que os debates sobre determinados temas se devam confinar às elites, ou a especialistas na área, nada disso. Mas devemos, em qualquer caso, ter a humildade de reconhecer que não sabemos tudo, não nos arvorando em donos da verdade, sobretudo quando quem entende do assunto nos explica que partimos de premissas erradas.

Vem tudo isto a propósito de uma publicação no facebook que foi feita pela Ave – Associação Vimaranense de Ecologia a propósito do chamado “algodão” que é solto pelos choupos e que, durante uns dias do ano, parece que transformam certas zonas de Guimarães em paisagens nevadas.

Nessa publicação se afirmavam coisas cientificamente comprovadas, com ligações para os respetivos estudos. À cabeça, a informação que contraria o senso comum: o algodão solto por aquelas árvores não é causador de alergias. O que sucede é que, na mesma altura em que o mesmo é solto, a esmagadora maioria do pólen que existe é produzido sim por gramíneas e não é sequer visível a olho nu.

Ora, se lermos os comentários à publicação, rapidamente percebemos que muitos não aceitam o seu teor, baseando-se numa espécie de conhecimento empírico que não precisa da ciência para nada. Uma bateria de pseudo especialistas que dizem que não senhor, que estas árvores causam alergias e que por isso deviam ser todas abatidas. E não adianta mostrar os estudos pois que algumas pessoas não querem (literalmente) saber.

O dito socrático do “só sei que nada sei” anda claramente pelas ruas da amargura. Hoje em dia é mais o “eu é que sei e sei sobre tudo”. Apetece, por isso, pedir às pessoas que esqueçam os tudólogos e que tenham um bocadinho de humildade. Há muitas coisas que não sabemos e às vezes pensamos que sabemos tudo e o que julgamos saber está factualmente errado. Não custa nada ouvir os especialistas e firmar as nossas convicções em cima de verdades científicas.

Caso contrário, qualquer dia não nos distinguiremos muito daqueles maluquinhos que defendem que a Terra é plana, ou daqueloutros (mais perigosos) que são contra as vacinas ou que negam as alterações climáticas…

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