O direito de continuar a ser criança

Por Adelina Paula Pinto,
Vice-presidente e vereadora da Câmara Municipal de Guimarães

No próximo dia 1 de junho comemora-se o Dia Mundial da Criança, uma comemoração que vem desde 1950, no final da 2ª Guerra Mundial, pela necessidade de se ter uma atenção especial às crianças. A 20 de novembro de 1959, a Assembleia das Nações Unidas proclama a Declaração Universal dos Direitos da Criança, um documento que assume não só o conceito de infância (lembremo-nos que o conceito de infância é muito recente, a criança era sempre entendida como um adulto pequeno) mas de uma infância feliz!

Tantos anos depois, tanto precisa ainda ser feito pelas nossas crianças. E se no final duma guerra mundial, em que tantas crianças sofreram horrores e morte, neste ano, em que vivenciamos todos uma situação tão dramática, há que olhar novamente para os mais novos, os mais vulneráveis, os que podem ter o seu presente condicionado e o futuro hipotecado!

O confinamento a que fomos obrigados levou as nossas crianças para as suas casas, sabendo nós que muitos dos problemas que as afetam estão em casa! Casas onde pode haver fome, casas onde não há condições para o seu ensino à distância, casas onde não há a compreensão e o amor que a Declaração Universal diz que é um direito da criança. Casas onde impera a solidão no meio de um ruído ensurdecedor! Casas que não são lares!

Quantas crianças, no meio desta pandemia, tiveram de deixar de ser crianças? Quantas crianças tiveram de deixar de brincar? Quantas crianças deixaram de ser felizes porque assimilam as angústias, os medos e as inseguranças das famílias?

Todos nos readaptamos rapidamente à nova realidade e a escola conseguiu implementar, de uma forma muito ágil, o ensino à distância. Mas esta escola à distância tem de ser assumida apenas como uma resposta a uma emergência, ela não consegue responder às necessidades das nossas crianças e jovens. A falta de interação social com os colegas e amigos, a diferente vivência com a família mais alargada (por exemplo os avós), a falta de rotinas diárias, pode trazer sérios riscos à saúde mental dos mais novos! Nós somos animais sociais, crescemos nesta relação construída com o outro, numa socialização que as escolas vieram acrescentar aos seus paradigmas mais formais de construção de conhecimento. A escola, enquanto verdadeira matriz da nossa democracia, uma escola para todos, uma escola que tenta anular ou pelo menos mitigar, os contextos sócio económicos e culturais da família. Esta escola não pode ser colocada em causa, esta verdadeira democratização tem de continuar a ser uma realidade, temos de continuar a garantir uma escola presencial, uma escola socializadora, uma escola pró-ativa e dinâmica que se vá adequando às novas realidades! Uma escola que continue a ter um olhar atento sobre todos! Uma escola que saiba olhar para as crianças, que saiba ler as suas emoções, que saiba promover a participação, a motivação e o envolvimento. Uma escola não só que prepare para a vida, mas que seja vida!

Só quando sentimos falta valorizamos realmente. Este tempo vem trazer esta valorização da escola, este ecossistema que não pode ser substituído por nenhum equipamento tecnológico, por nenhuma plataforma. Apesar da importância crucial da família, a criança precisa de outras interações, de outros adultos de referência e, acima de tudo, precisa de outras crianças! E precisa de brincar! Este é o nosso desafio, permitir que cada criança tenha o direito a continuar a ser criança, a brincar e a ser feliz!

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