O JARDIM PROIBIDO E A FLORESTA VIMARANENSE

Por António Rocha e Costa,

Analista Clínico

Nos idos anos da década de sessenta do século passado, o Liceu de Guimarães ostentava um belíssimo espaço ajardinado circundante, que mais se assemelhava a um mini-jardim botânico, tal a profusão e diversidade de plantas que o compunham.

O jardineiro-residente, responsável por manter asseado e bem cuidado aquele espaço, chamava-se senhor Teixeira, mais conhecido por “o bigodes” ou “le moustache”, para aqueles que optavam por exibir o seu francês rudimentar.

Com o seu ar rústico e sorumbático, o “bigodes” mimoseava as plantas com um tratamento inversamente proporcional àquele que dispensava aos alunos que porventura se atrevessem a tocar nas ditas, sobretudo se de flores se tratasse. Um tal comportamento fazia dele uma figura temida pela rapaziada, que passou a encarar o dito espaço como uma espécie de “jardim proibido”, de acesso muito restrito.

Há dias, passei junto do edifício, já renovado, que se chama agora Escola Martins Sarmento, e reparei que o jardim desapareceu e que, onde outrora cresciam flores e plantas viçosas, proliferam ervas daninhas, abandonadas à sua sorte.

Mesmo tendo em conta a magreza dos orçamentos, nada justifica este abandono e o laxismo que lhe subjaz, pois se não há dinheiro para um jardim vistoso, plante-se ao menos uma horta, onde os pepinos, os tomates e as alfaces desabrochem vicejantes, constituindo um regalo para a vista.

Não esqueçamos que “é de pequenino que se torce o pepino”, sendo por isso um dever das escolas incutir nos jovens o gosto pela natureza.

Basta seguir o exemplo do Presidente da Câmara de Guimarães que, no contexto do projecto “Guimarães, Mais Floresta”, promoveu, no passado dia 9 de Março, a plantação de espécies autóctones, na zona de Monchique, freguesia da Costa.

Rezam as crónicas que foram plantados vários freixos, cerejeiras e carvalhos do norte, embora, eu tenha algumas dúvidas de que esta última espécie seja realmente autóctone. Não sendo um especialista na matéria, sempre ouvi os entendidos dizerem que o carvalho característico da zona mais pluviosa do norte de Portugal é o Carvalho-Roble ou Carvalho-Alvarinho. Mas isso é apenas uma questão de pormenor. O que importa é que o exemplo frutifique e que seja incutida no cidadão a ideia há muito propalada de que um Homem só se realizará verdadeiramente se fizer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Por incrível que pareça, a função que garante a manutenção da espécie, lá vai sendo cumprida e quanto a escrever livros basta olhar para a proliferação editorial que inunda as montras das livrarias, os hipermercados, ou mesmo as estações dos correios. O que vai tendo pouco incremento é mesmo a plantação de árvores e de outros exemplares do reino vegetal.

Nesse sentido é de louvar a iniciativa do edil vimaranense que se propõe, segundo a imprensa local, cobrir, no espaço de dez anos, toda a encosta da Penha com espécies arbóreas indígenas, no estrito cumprimento do projecto “Guimarães, Mais Floresta”. Só que, atendendo à sementeira (ou será cimenteira?) de prédios que se vai verificando pela encosta acima, qualquer dia só sobra espaço para um pequeno bosque, ou seja, um bosquete. Não será pois mais realista, reformular o projecto e chamar-lhe “Guimarães, Mais Bosquete?”. Sempre se evitaria enganar os papalvos, fazendo-os tomar a árvore pela floresta.

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