O processo de lamento
Por André Veríssimo.

André Veríssimo
Por André Veríssimo,
Empresário, Investigador Universitário, EnsaístaAutores há como Gillian Rose que se contam como as mais extremistas pensadoras contra o fenómeno pós-moderno caracterizando-o como “desesperante racionalismo sem razão”, e argui estridentemente e de forma recidiva pelo zelo do pós-modernismo na desqualificação das noções universais de justiça, de liberdade e do bem… assim o pós-modernismo não tem imaginação para a sua implicação no solo da justiça, da liberdade e da verdade. A ênfase num “processo sem fim de lamento que, ironicamente, as deploradas firmezas dos pós-modernismos nunca aceitaram como tal, nem permitiram qualquer evasão. A evocação da dor, tensão e espera apática, foi substituída pelo compromisso activo na Polis e pela busca da Justiça.”
Recuperar o fundo perdido da razão pós-modernista tem sido reclamado pelo mundo pós-Holocausto. Isto está a ser obtido pela viragem que se afasta do caminho lógico dos dualismos e das falsas oposições articuladas em obras de escritores como Maurice Blanchot e Emmanuel Levinas a respeito do “equívoco” que a Razão hegeliana tornou possível. Tal razão é capaz de decompor e analisar a variância entre objectivos e os resultados que Bauman tem referido em algumas das suas obras; ela pode provocar a revisão, pode permitir o movimento de afastamento de outros resultados discordantes. É portanto, sempre provisório e preliminar e pode ser sempre redireccionado; o seu poder assimilativo pode admitir surpresas e antecipar acontecimentos e, assim sendo, pode “redescobrir nas suas fronteiras moventes” deixar o passado para trás, esquecido. Esta perspectiva proximal de pensar aceita a ansiedade e a ambivalência do poder, mas a história, em contraste com a conclusão de Blanchot, é re-investida com o significado e a significância. Rose foi clara, todavia, que pela razão ao ser restaurada, pela “alma” ao ser renovada e revigorada, o próprio processo de lamento se tornou necessário: o trauma do Holocausto, tem que ser lavrado através da Razão; se completado, a dificuldade política insurge-se como dificuldade por excelência… a aporia, a dificuldade da relação entre o universal, o particular e a sua distribuição singular teria que ser reconfigurada.
A aceitação via processo de lamento da inexorabilidade da razão efectuaria uma assimilação do Holocausto que não envolveria a condenação ao silêncio… à inefabilidade, à não representabilidade, … a algo que enfim não pudéssemos entender” G. Rose, Mourning Becomes the Law: Philosophy and Representation (Cambridge: Cambridge University Press, 1997). Vd. também J.-F. Lyotard in Heidegger and the ’Jews’ (Minneapolis: University of Minnesota, 1990).
Outro tema que nos agradaria expor é a vantagem clara do testemunho com que um actor como Kirk Douglas (KD) cujo nome autêntico é Issur Danielovitz Demsky, filho de um imigrante judeu da Rússia, que se tornou uma lenda em Hollywood por mais de quatro décadas expõe alguns dos seus pensamentos; é autor de sete livros que incluem a sua autobiografia “Ragman’s Son” e “Climbing The Mountain” sobre o seu regresso ao judaísmo.
Evoca ele: como sobrevivemos, perdidos em diferentes partes do mundo, dentro de culturas estranhas e constantemente perseguidos? Os nossos inimigos levantaram-se e caíram e nós aqui estamos. Os Babilónios, os Persas, os Gregos, os Romanos [Lembram-se da Haggadah?], todos estão fora da imagem, mas nós permanecemos. E aí… diz Issur Demsky, aliás, KD, dei-me conta de que devemos agradecer a esses judeus piedosos de barba e chapéu negro por ajudar a manter o judaísmo vivo por tanto tempo. Eles entenderam algo muito profundo que nós, os seculares, nunca entendemos. D-us deu-nos a Torah e fez que sejamos a consciência do mundo. As ideias de amor, compaixão, amabilidade aos outros e aos pobres, as ideias de santidade, do propósito humano, a reverência pela vida e disciplina pessoal, todas provêm da Torah. Inclusive, nós, os judeus, se nos esquecermos, os nossos perseguidores, nos recordam disso. Assim como disse Hitler no seu momento: “é verdade que nós os alemães sejamos bárbaros, esse é um título de honra para nós. Eu liberto a humanidade da alma: do sofrimento degradante causado pela falsa visão chamada consciência, ética. Os judeus infligiram duas feridas à humanidade: a circuncisão nos seus corpos e a consciência na sua alma. Esses são os inventos judeus, a guerra pelo domínio do mundo, está sendo disputada somente por estes dois campos entre os alemães e os judeus. Tudo o resto é pura decepção”. Hitler tinha razão, continua KD. Tudo é batalha entre o mal e o bem. Só me estou dando conta do que significa para nós os judeus, e dá-me medo, pois isto faz-nos ter uma responsabilidade enorme. Não há que surpreendermo-nos disso porque muitos judeus trataram pela segurança da assimilação, porém essa segurança ao final resulta num logro.





