OS DIAS PASSADOS À JANELA

por MARCELA MAIA
Técnica de relações internacionais na Universidade do Minho

De quando em vez ao passar em frente ao Hospital da Senhora da Oliveira, Guimarães, dou por mim a observar os vultos das pessoas que lá estão e se encontram à janela.

Há alguns dias soube que o regime de visitas ao Hospital da Senhora da Oliveira seria alterado e fui levada a pensar novamente nessas mesmas pessoas à janela cuja fisionomia e identidade desconheço.

O novo regulamento de visitas cria a figura de acompanhante do doente e diz que este poderá acompanhar a pessoa internada das 11:00 às 20:30. Com isto pretende-se uma humanização dos cuidados de saúde.

Ultimamente tem vindo a verificar-se um aumento significativo na implementação de medidas e projetos que pretendem tornar os hospitais em ambientes menos inóspitos, seja através dos vários projetos da Cruz Vermelha Portuguesa que visam todos os públicos hospitalizados; através de melhorias das condições das próprias infraestruturas e materiais utilizados ou alterando os regulamentos de visitas. Certo é que estas estas melhorias parecem nunca ser suficientes…

Não creio haver muita gente que goste de ir a hospitais, talvez porque as suas paredes pareçam carregadas de sofrimento e de memórias pesarosas – poucos são os bons momentos que ao longo da vida nos levam àquele espaço, à parte dos nascimentos.

A minha visão pessoal dos hospitais sofreu uma metamorfose radical ao longo dos anos.

Quando era criança, deslocava-me várias vezes ao hospital para visitar familiares e encarava aquelas visitas com a maior naturalidade possível. Havia qualquer coisa de cativante em andar com um crachá de visitante ao peito – algo semelhante a termos acesso privado a um lugar muito importante, com elevadores maiores que as superfícies comerciais e com mais botões que os elevadores dos hotéis. Deslocava-me pelas alas hospitalares silenciosa e serenamente. Lembro-me de passar pelos quartos que tinham idosos e sentir uma vontade enorme de lá entrar e deixá-los contarem-me as suas histórias.  Achava incrível aquele lugar ter um quiosque, uma capela e a comida ser servida no quarto. Parecia-me um bom local para estar, até ter começado a perceber que a grande maioria das pessoas que lá estava, não desejava lá ficar.

À medida que fui crescendo, os casos que me conduziam ao hospital foram começando a ser mais graves. O cheiro que lá se fazia sentir começou a tornar-se desagradável e o elevador começou a parecer-me claustrofóbico para a quantidade de pessoas que transportava. A relevância que aquele lugar tinha para mim, começou a dissipar-se e voltou-se unicamente para as pessoas – os internados e os visitantes O rosto das pessoas começou a parecer-me mais carregado de dor e passei a admirar a coragem dos que lá estavam.

Hoje, tenho consciência que trabalhar num hospital deve ser das profissões mais difíceis que existem, onde para cada vitória e intervenção bem-sucedidas, há constantes perdas e insucessos e há que tentar deixar o que lá se passa, nesse mesmo local. Como é que isso se consegue? Não faço ideia. Eu provavelmente não conseguiria.

No entanto, na minha opinião, mais difícil ainda do que trabalhar num hospital é estar internado num hospital e ter de estar – por razões logísticas e normativas – mais de 14horas sozinho, à janela…

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