OS JOGOS DA DESILUSÃO PORTUGUESA

Portugal mandou aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro a terceira maior delegação de sempre. Entre os 91 atletas da comitiva portuguesa quatro eram de Guimarães. No regresso trazem a pior participação desde 1984, quando Carlos Lopes conquistou a primeira medalha de ouro para Portugal.

Portugueses em geral e vimaranenses em particular viram o arranque destes Jogos Olímpicos (JO) com grande esperança. O país acabara de ser campeão da Europa de futebol. Obteve uma série de bons resultados, a nível europeu e mundial, em diversas modalidades, nos meses que precederam a olimpíada. Além disso, levou para o Rio de Janeiro a terceira maior delegação de sempre, com 91 atletas, após Atlanta, em 1996, (107) e Barcelona, em 1992 (101).

Sabendo que os lugares nos JO são limitados e que muitos bons atletas ficam de fora por não terem lugar, parecia um bom sinal. De acordo com os objectivos traçados pelo Comité Olímpico Português (COP), seria de esperar que 25% dos atletas apoiados com nível um chegassem ao pódio. Se esta previsão se cumprisse teríamos pelo menos duas medalhas, um resultado igual ao de Pequim 2008 e Atenas 2004. Portugal tinha 11 atletas com este estatuto, que implica ser medalhado em campeonatos da Europa ou do Mundo, entre eles o vimaranense Rui Bragança, do taekwondo.

Os atletas neste nível de apoio recebem mensalmente 1375 € do COP, ao passo que os atletas de nível dois e três recebem 1000 € e 900 € respectivamente. Além destas bolsas, os atletas  podem ainda receber apoios complementares, relacionados com as especificidades da sua modalidade; transporte e alimentação de cavalos, no hipismo, compra de coletes electrónicos, no taekwondo…

A medalha de Telma Monteiro foi a mais cara de sempre no olimpismo português. Para este ciclo, o investimento ultrapassou os 17 milhões de euros e pela primeira vez incluiu o ano a seguir aos JO (2017). Em Londres 2012, Portugal alcançou uma medalha de prata (canoagem K2), em Pequim 2008, uma de ouro (triplo-salto) e uma de prata (triatlo), com um investimento que ficou pelos 15 milhões em ambos os casos. Na realidade, Portugal manteve-se na média daquilo que têm sido as suas participações desde sempre.

Em 24 participações o país conquistou outras tantas medalhas. No fim de cada edição dos JO, há sempre explicações dos diversos intervenientes para estes resultados: que Portugal é um país pequeno, pobre e sem condições, entre outras, são as razões apontadas para a magreza de medalhas.

Quando se compara Portugal com outros países com o mesmo número de habitantes, mais ricos e mais pobres, do norte e do leste da Europa, das Caraíbas, do norte de África ou do sul da Europa, a única coisa que se encontra em comum é que quase todos ganham mais medalhas.

A Tunísia, um país que acabou de passar por um processo revolucionário conturbado, alcançou duas medalhas no Rio de Janeiro e já em Londres tinha feito melhor que os lusos, apesar de, na soma das quatro últimas edições, ter menos uma. A Grécia, com quem Portugal é muitas vezes comparado, pelas piores razões, ganha invariavelmente  mais medalhas. A riqueza também não parece ser um bom indicador para explicar o sucesso dos países nos JO, já que, dos oito estados com quem comparamos Portugal, só três têm um PIB superior ao Português, embora todos apresentem melhores resultados.

No Centro de Alto Rendimento da Anadia incubaram-se 11 medalhados olímpicos do Rio 2016. Portugal fez um grande investimento em infra-estruturas e, se em algumas modalidades continuam a faltar condições, a realidade é que há equipas estrangeiras que escolhem Portugal para fazer a sua preparação. Neste local estagiaram as seleções de ginástica da Holanda, Bélgica, Rússia e do Reino Unido. As medalhas portuguesas nos JO parecem ser mais mérito individual de atletas e treinadores que o resultado de um sistema de desporto de alto-rendimento nacional. Só assim se explica a diversidade de modalidades em que são alcançadas as medalhas, ao contrário do passado em que o trabalho feito no atletismo de fundo apresentava resultados consistentes em cada participação.

Quando se ouve as palavras de Rui Bragança, no final do torneio olímpico de taekwondo, dizendo que não volta a pedir dinheiro aos pais para competir, percebe-se que alguma coisa está mal no sistema desportivo português, importa descobrir o quê e resolver os problemas a tempo de Tóquio 2020.

 

 

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