PENSAR DIFERENTE

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

A beleza do símbolo ≠ sempre me cativou. A sua geometria ímpar, duas linhas paralelas cortadas obliquamente por uma outra linha, simultaneamente tão semelhante e tão desigual do símbolo da igualdade (=). Nunca os extremos tiveram tão perto e tão longe um do outro.

O diferente carateriza-se matematicamente por x ≠  y em que x e y não representam a mesma coisa ou o mesmo valor. Na essência exprime a ideia de não  semelhança, de diferença.

A diferença é a caraterística do que é capaz de distinguir uma coisa de outra, algo que é desprovido de semelhança. Matematicamente é o valor obtido numa subtração (o resto). Mas exprime também a noção de variedade e de diversidade.

A noção de diversidade (qualidade daquilo que é diverso, i.e. diferente) relaciona-se e interliga-se com heterogeneidade, multiplicidade e pluralidade. A expressão de diferentes ângulos de visão ou mesmo de abordagens encontra-se, muitas vezes, associada à ideia de tolerância mútua.

A diversidade é parte integrante e central da natureza, do homem, da sociedade, do conhecimento, de tudo o que nos rodeia, do nosso ser enquanto homem, da história.

No século XIX Charles Darwin, na sua obra “A Origem das Espécies”, sugere a ideia de evolução a partir de um antepassado comum apresentando uma explicação científica para a diversidade de espécies na natureza. Com os mecanismos genéticos, tais como a seleção, o cruzamento e a mutação, compreendemos os processos de surgimento desta diversidade.

Descartes (século XVII) sugere que a diversidade de ideias decorre do rumo/direção do pensamento e por não serem ponderados os mesmos prossupostos por todos.

Albert Camus (século XX) em “O Mito de Sísifo” entende que todos os pensamentos que renunciam à unidade exaltam a diversidade.

Poderá uma sociedade evoluir ou memo sobreviver sem diversidade?

Vivemos tempos estranhos onde a diversidade de práticas, costumes, comportamentos, crenças, valores e de pensamento é ostracizada e manietada. Temos de seguir as normas, as modas, as tendências e as ordens de quem manda, mandando sempre segundo uma perspetiva unidimensional como afirmou Herbert Marcuse (século XX).

Esta estratégia deliberada atinge os limites do ridículo na Europa onde até a fruta normalizam, temos de comprar ou comer a que tem as medidas, a cor e o aspeto que nos “autorizam”. Tudo tem de seguir uma certa orientação, a linha que é pré-determinada e que não admite desvio.

Não seguir a voz dominante, é não seguir a moda, é sair do mainstream e naturalmente (entre aspas) ser objeto de censura. Estamos perante o domínio da igualdade sobre a diferença.

Sendo de destacar que a diversidade de opiniões ou pontos de vista e a diversidade de pensamento é essencial numa sociedade tolerante que almeje o progresso. Uma sociedade que se fecha em si mesmo, que não esteja recetiva a receber e a sentir os novos ventos, tende a confinar. São inúmeros os exemplos ao longo da história da humanidade de civilizações/sociedades que pelos mais variadíssimos motivos perderam a capacidade de gerar diversidade e, por isso, desapareceram nas brumas ou foram derrotadas pelos ventos da história.

Como refere Mia Couto o que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a sua capacidade de produzir diversidade. E, como Eça de Queiroz tão bem explanou “Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que todos estão errados”.

Porque o PENSAR DIFERENTE sempre foi o leme de quem quis e conseguiu estar na frente do seu tempo.

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