PIEDADE E DOMINGOS

Nome completo:
Benta da Piedade Lopes da Costa
Domingos de Miranda
Nascimento:
30 de julho 1920 (Domingos)
06 de Setembro 1929 (Piedade)
Profissão: Reformados

Ele tem 95 anos, ela 86 e fazem amanhã 70 anos de casados. Dez filhos, catorze netos, doze bisnetos. Números que contam tanto. Revelam uma vida pacata, singela, sem o brilho que tolhe a realidade dos contos de fadas. Amanhã, 16 de dezembro, celebram todos e cada dia em que estiveram juntos numa festa que vai contar com missa e almoço.

Um domingo de verão, Piedadinha estava a terminar uma saia de lavradeira “assim com aquelas pregas muito miudinhas”. A mãe atirou-lhe: “Ai que hoje já ficas sem missa!”. A já moça, então com 15 anos, desceu Penha abaixo para ir à tardia missa do meio-dia. Mal entrou esbarrou os olhos nos de Domingos. Ainda tentou escapar-se ao encontro que se revelaria inevitável. Saiu antes do fim da celebração mas Domingos foi no seu encalço. A simplicidade de um “eu gosto de ti. És muito bonita” bastou para cair no goto de Piedade.

Quando chegou a casa e o “outro” lhe veio falar, mandou-o embora. Este, aziado, disse que ela era traiçoeira. Falou 15 meses para Domingos – porque namorar, nos tempos que descreve era literalmente falar – e casaram no final do outono de 1945. “Eu tinha 16 anos e até podiam pensar que eu tinha ‘compromisso’ porque casámos no inverno, mas não. Foi tudo feito às direitas”, salvaguarda Piedade.

Levou uma saia-casaco azul-marinho, a saia feita por ela, o casaco, vestuário de mais pormenor, saiu das mãos de um alfaiate. E um véu de noiva. Domingos também teve direito a estrear fato novo. Não há fotos do dia do casamento mas o retrato que tiraram uma semana antes merece lugar de destaque entre os passepartouts de filhos, netos e bisnetos. Um deles foi desencaixilhado para ser dado à estampa neste jornal.

O casamento foi celebrado na capela de Nossa Senhora do Carmo, na Penha. O almoço, contado para 38 pessoas, teve ementa de luxo: cozido à portuguesa – “uma novidade na altura!” -, arroz de frango e vitela assada. A mesa farta foi coroada com o bolo de noiva. “Sim, menina, eu tive direito a bolo de noiva”, orgulha-se.

Desde o dia em que desceu a Penha, o elemento telúrico que abraça toda esta história, que vive naquela casinha de pedra à face da estrada que vai para Fafe. Ali nasceram e criou os dez filhos. Piedade é mais ágil nas palavras mas o discurso entorpece quando recorda os dois filhos que partiram. Verdade universal: “Nenhuma mãe devia ver um filho morrer”.

Faço-lhes todas as perguntas clichés. Como “Qual é o segredo para se manter um casamento feliz durante 70 anos?” Nem sabem bem do que estou a falar. O amor, o casamento, a felicidade são naturais para este casal. Tão naturais, tão simples que sequer falam disso. Mas o lado comunicativo de Piedade não me quer deixar sem resposta e aponta-me outro conceito universal. “Sempre me deixou andar à minha vontade, nunca se meteu na minha vida e nas minhas coisas, nem eu nas dele”. E sempre tiveram a liberdade de escolherem fazer tudo juntos, cumplicidade gabada até pelo padre da freguesia na celebração das bodas de ouro.

“Ó senhor Domingos e qual é a principal qualidade da D. Piedade?”, pergunto-lhe. Olha-me pensativo. “É ela ser bem parecida. Sempre foi bonita. Quando era nova, quando fizemos as bodas de ouro e hoje”. Não lhe exijo que lhe aponte um defeito porque também confessa que não iria conseguir. Sobre Domingos, Piedade tem a resposta na ponta da língua. “Fumar”. “Fumou a vida toda e ainda hoje, de vez em quando, ainda fuma. Acredita?”. Pois acredito sim senhor que esse não é vício fácil de dominar.

Foi uma hora a repassar muitas horas. Despeço-me de Piedade e Domingos, desejando que nos tornemos a ver daqui a cinco anos para as bodas de diamante.

Por: Catarina Castro Abreu

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